Downs explica o que aconteceu hoje em MA

Então, depois de uma cambada de anos onde os Kennedys dominaram o cenário político no paraíso liberal chamado de Massachusetts, um senador republicano é eleito.

Calma, não é o fim do mundo.

Primeiro lugar, Massachussetts não precisa ser um referendo do governo Obama. Acabou virando um referendo do governo Obama quando o próprio resolveu emprestar capital político para uma candidata que já tinha detonado as próprias chances em uma campanha ridícula. Segundo lugar, foi uma eleição tranquila, com participação pequena, sem tumultos e que não causou comoções dentro do contexto de MA. Pelo menos comparado com, digamos, o cenário de 2000 ou mesmo da campanha do ano passado.

Mais ainda, MA não vai definir o plano de saúde. O plano de saúde já poderia ter sido aprovado umas quinze vezes – pelo menos o plano de saúde universal, já que algumas reformas (mínimas, constrangedoras para o país mais rico do mundo) passaram ainda no fim do ano passado. Os democratas não conseguem organizar a própria base, dominada por burocratas, os panacas do Moveon.org e os clintonianos testas-de-ferro. De alguma forma, os republicanos conseguiram nos últimos oito anos o que eu imagino ter sido o seu objetivo principal: corroer a malha dos democratas, que precisaram basicamente vender a alma para conseguir fazer política durante os anos Bush.

Mas eu estou divergindo do meu ponto principal. O ponto principal é: Downs, no Economic Theory of Democracy, explica o que aconteceu hoje em MA. Deixa eu primeiro lembrar o axioma para vocês:

iff (p[VpX+{-VpY}]+[D-{C}])>0, then Vote.

Lembrando que isso em lngua de gente significa que levando-se em consideração que

1) indivíduos são capazes de preferir um candidato ao outro

2) indivíduos são capazes de quantificar de forma articulada o quanto preferem um candidato ao outro

3) indivíduos tem custos para votar

4) indivíduos tem vantagens para votar

Somos capazes de inferir que um indivíduo é mais motivado a votar na medida que sua preferência por um candidato pode ultrapassar as desvantagens econômicas e sociais de ter que se mobilizar para votar.

Pois bem, vamos focar no aspecto [VpX+{-VpY}], ou seja, na determinação de vantagens e desvantagens.

Primeiro, isso presume uma colocação ideológica . Mas o que isso significa? Isso significa que indivíduos vão identificar sua preferência por um ou outro candidato baseados na sua capacidade de identificar diferenças materiais entre votar em um e no outro candidato. Digamos, individuo vai valorizar o voto em X na medida que for capaz de desvalorizar o voto em Y. Se eu prefiro X a Y apenas um pouco a possibilidade de eu me mobilizar para votar em X é muito pequena.

Deixa eu dar um exemplo pessoal. Para mim, a próxima eleição no Brasil é optativa. Minha situação nos Estados Unidos me permite justificar o voto sem maiores problemas. Pois bem. Hoje, dadas as alternativas, eu prefiro o Serra. Mas vamos colocar isso em perspectiva, eu gosto do Serra só um pouco mais do que da Marina e um tantinho mais do que da Dilma. Eu realmente gosto muito mais do Serra do que do Ciro. Em termos racionais, os custos de ir até Chicago para votar, arriscar perder aula, perder tempo útil que posso gastar traduzindo e pesquisando, não justifica uma viagem deste tamanho. Agora, me pergunta de novo se eu iria até Chicago para votar no caso de ser uma eleição entre Marina ou Serra e o Ciro? Digamos, em um segundo turno entre Marina ou Serra e Ciro, eu vou até Chicago votar, porque não quero ter que olhar para minha sobrinha no futuro e ter que dizer que me omiti em uma eleição destas. Esta eleição, como está, não me motiva em termos ideológicos a tirar minha bunda da cadeira.

Vamos transpor isso para o cenário de MA.

Temos uma candidata democrata, em um contexto onde quase todas as atuais demandas de saúde já estão garantidas em nível estadual (na realidade, o plano atual para os cidadão de MA é melhor que a proposta mais progressiva no painel do senado). Mais que isso a candidata tem o carisma de um xuxu, foi incapaz de sair para rua para entregar panfletinho e mobilizar a base. Mesmo o eleitor normal de MA, que apoia o Obama na casa dos 65%, não vai se motivar para sair e votar nesta mulher. Apenas os eleitores mais identificados com o partido democrata vão votar.

Agora, vamos virar o jogo:

Os republicanos tem um candidato folclórico. Candidatos folclóricos funcionam em qualquer contexto, porque eles motivam a base a se mobilizar. Olivio Dutra, Sarah Palin e Garotinho são bons exemplos. Eles falam alto para certas bases ideológicas que vão votar sempre que estes indivíduos aparecerem. Isso é porque eles valorizam estes fatores de forma tão exacerbada, que os custos materiais de votar são obliterados pela vantagem pessoal “votei no meu camarada Olívio!”. Em um contexto onde o voto não é obrigatório, estes candidatos tem ainda mais vantagens. Isso porque eles não vão arriscar que eleitores moderados sejam obrigados a comparecerem nas urnas. Em um contexto sem segundo turno, isso se torna ainda mais exacerbado.

Mas isso não é tudo.

Se o eleitor normal dos democratas é um centrista, o eleitor normal dos republicanos não é mais. Já foi. Até os anos Reagan, ouso dizer até os anos Clinton, a organização social da esquerda e direita americana era de puxar o adversário para a esquerda ou para a direita e situar-se ao meio. Todos os vencedores de eleições nos estados unidos, de Kennedy até Gore, se comportaram desta forma. Com o escandalo da eleição do candidato com menos votos em 2000, a maré virou.

Bush jogou os Democratas para uma esquerda deslocada, mas colocou a base do seu partido não ao centro – mas na direita. Vamos ao ponto: o eleitor normal do partido republicano sempre começa valorizando seu candidato de forma exacerbada. Esta estratégia te garante muitos votos em eleições que o público não reconhece como relevante. Historicamente, isso é o caso de eleições para o Senado na costa leste e o oeste (no mid-west e no mid-south a coisa muda de figura). Uma consequencia menos interessante do ponto político, é que eleições onde o público está mais centrado e motivado para votar vão derrotar teu partido sempre. E é por isso que Obama vai ser re-eleito.

Porque isso é o caso nas costas leste e oeste?

Por que históricamente os senadores das costas são centristas. Sejam republicanos, ou democratas. E a cultura política é do “ah, que seja, este cara tá bacana”. No caso de MA, o cara bacana sempre terminava com o nome Kennedy, tinha um carisma alto e era capaz de motivar os democratas a tirarem a bunda da cadeira.Neste ano, as motivações democratas desapareceram. Ainda que eles prefiram a candidata democrata, eles simplesmente não preferem ela o suficiente para levantarem e irem votar. O contrário é verdade para os republicanos que se viram na posição de conseguir algo para 1) irritar um presidente que eles não gostam e 2) colocar no senado o camarada que foi eleito um dos homens mais bonitos dos EEUU e dirige uma patrola 4×4 e adora caçar.

Não tem bruxaria alguma aqui. Os republicanos se beneficiaram do fato que os democratas identificam a sua situação social em MA como segura o suficiente para não estarem particularmente motivados para votar, e que os republicanos pensam justamente o contrário.

Outra coisa, convém não dramatizar: a reforma da saúde vai passar nos termos que o centro dos democratas decidir. E ponto. Com ou sem o voto de MA. É importante perceber isso: a proposta do plano universal não foi aprovada em um congresso manifestamente dominado por democratas. Isso porque os democratas do mid-west, mid-south e northwest não vão votar com esta reforma. Dois motivos: eles são democratas por questão locais, não por questões da base democrata históricamente identificada com o liberalismo político. Eles são democratas que em um gráfico estariam tocando na linha entre o vermelho e o azul, e o seus adversários nos respectivos estados estariam BEM para a direita do azul, quase fora do gráfico. São estes democratas que vão decidir a reforma da saúde, a hora de fechar Gitmo e os novos planos econômicos. Pelo menos até a eleição do ano que vem, quando o congresso deve voltar para uma organização 54/46 que é o histórico dos Estados Unidos. A atual está quase no 70/30, que é uma completa maluquice.

Viram? As vezes dá até para fazer coisas úteis com o que a gente estuda!

Em tempo, me rendi ao último modismo e agora fiz um formspring! Prometo responder todas perguntas de forma mal educada, irônica e arrogante. Você! Que sempre sonhou em poder me colocar naquela situação desagradável, desconfortável e meio fedida (tipo a trazeira de um Camero), favor remeter-se ao http://www.formspring.me/fpontin. Pode perguntar como anônimo, eu juro que respondo.

Comments
2 Responses to “Downs explica o que aconteceu hoje em MA”
  1. Paulo disse:

    Só não consigo entender como vc ,que sempre falou de ter uma certa aversão por ciencias exatas, agora explica tudo por fórmulas e todas elas mais complicadas que a Teoria da Relatividade. Penso que está contaminado por Big Bang Theory.

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