Heiddeger e a questão da filosofia

[para u]m semita (…) a natureza de nosso espaço germânico é essencialmente estrangeira

Heidegger, 1931

[o] Fuhrer é, e apenas ele, o futuro e o presente da realidade e legislação alemã

Heidegger, 1933

[a] questão da vontade da comunitária é evidentemente presente em todas as democracias. No entanto, a questão só se torna proveitosa quando o querer da comunidade e o querer do Fuhrer são identificados na mesma essência

Heidegger, 1934-1935

[Baruch] Spinoza inseriu a gíria judaica na filosofia

Heidegger, 1935

Faye, no livro explosivo sobre Heidegger que não deveria ser novidade para ninguém, chega a sugerir que o velho nazi foi inclusive ghost writter do Hitler entre 1933 e 1934.

Estes dias, eu lia umas declarações do Rimbaud, reproduzidas por Agamben, sobre poesia. Rimbaud dizia que poesia era uma coisa ruim, malvada que era preciso parar. Isso da boca do homem que depois dedicou a vida a traficar trabalho escravo na África francesa. Agamben, no livro sobre Aushwitz, inclusive cita Heidegger falando sobre Parmenides, em um trabalho publicado justamente nos anos 30.

Devemos deixar de lado a ironia de citar um anti-semita em um livro sobre o Holocausto? Volta e meia eu volto para este assunto aqui no blog. Isso é porque toda vez que eu leio alguma coisa nova sobre o Heidegger me bate um desânimo sem tamanho. Eu não sou um grande entusiasta de qualquer ontologia. Não acho que a questão do ser é uma questão importante. Acho que é resquício de uma época na qual a filosofia achava que a alma era uma questão importante e que em salões de intelectuais, na frança, na espanha, em portugal, no brasil, nos estados unidos, discutia-se se o Negro tinha Alma e, caso negativo, podiamos escraviza-lo.

Wagner era um ser humano terrível. Devemos parar de ouvir as suas composições? Rousseau e Nietzsche talvez consigam rivalizar com Heidegger em matéria de racismo, machismo e latente falta de senso do ridículo. Devemos largar mão de suas colocações?

Artistas, de forma geral, se acham muito importantes. A genialidade destes indivíduos, na sua prática, no que eles realizam, deveria ser o suficiente para a gente deixar de lado o fato que a maior parte dos que se caracterizam como artistas são completos otários. Isso é verdade para a filosofia, para a música, para um bocado de coisa. Mas claro, pessoas são complexas. Ninguém é um buraco de maldade, existem circunstâncias para serem consideradas.

Mas eu te pergunto, que diabos de circunstância tu precisas para “[o] Fuhrer é, e apenas ele, o futuro e o presente da realidade e legislação alemã”? Tinha alguém apotando uma Luger para a cabeça do Heidegger? Ele não tinha tido a oportunidade de verificar o esforço militar que acontecia a poucas milhas da casa dele em um lugar chamado Dachau? Heidegger era um retardado mental incapaz de ver o que acontecia ao redor dele? Neste caso, porque devemos ainda levar a sério qualquer coisa que esta pessoa tenha escrito? Caso contrário, como é possível ler a Ontologia Heideggeriana sem levar em conta quem foi Heidegger e os motivos por trás de seu livro?

Claro, talvez Ser e Tempo ultrapasse, na sua “fabulosa complexidade” os motivos de Heidegger em escrever ser e tempo. Um colega meu, tempos atrás, dizia que não entendia como isso era sequer um problema, já que de todos que passam por Ser e Tempo ele sabia de sequer um caso onde o leitor havia sido indocrinado no nazismo. Pessoas que são expostas a Heidegger não se tornam nazistas por proxi, e algumas das obras de Heidegger são necessárias para compreender a filosofia do século XX – assim como Cummings é necessário para compreender a poesia.

Mas porque tanta bondade? Tu contratarias um excelente encanador, apesar de ele ser um nazista militante? “Mas ele faz excelentes encanamentos!”. Não temos esta bondade com as pessoas que nos cercam no nosso dia a dia, porque o relativismo moral com os artistas? O que torna o filósofo ou o artista especial? A verdade é que eu teria um problema sério em contratar um nazista militante para trabalhar no meu carro e no entanto eu leio um nazista militante para aprender sobre Ontologia. Tem algo manifestamente errado aqui e, é claro, trata-se de uma questão de transitividade.

Esta irracionalidade (e um problema de transitividade é sempre um problema de racionalidade) não é só minha, ela é nossa. Porque teimamos em insistir na transcendência da arte, na grandeza da obra e ficamos intoxicados com todas estas grandes bobagens. Talvez isso ainda seja parte de uma crença idiota no espírito humano e mesmo na idéia de transcendência (e é bizarro que estudantes de filosofia, eu também – eu principalmente-, ainda falem em transcendência quando ninguém mais realmente acredita em conto de fadas).

Eu não quero defender que a gente queime os livros do Heidegger em um ato de justiça poética – até porque, se devemos aprender alguma coisa com o Heidegger é nunca deixar as questões de justiça nas mãos de artistas. Mas a ambivalência desta situação incomoda. Talvez seja uma questão de manter em mente este fantasma totalitário que assombra boa parte da filosofia continental do século XX – e da lógica também, porque Carnap era um completo retardado moral. Mas manter isto em mente não é nada fácil, porque nos obriga a questionar qual era o Ser que foi “esquecido” (Heidegger, 1927) na história da filosofia ocidental e qual era a sua relação com o “território fundamental” (Heidegger, 1934) onde este ser havia de emerger “de forma autêntica e pura” (Heidegger,1927,1934,1941,1953,1969,1973) para além “da inautenticidade da modernidade” (1931) que havia “nos levado para a modernização da agricultura e a necessidade de campos de concentração” (1931).

ara u]m estrangeiro semita (…) a natureza de nosso espaço germânico é essencialmente estrangeira

Heidegger, 1931

Comments
14 Responses to “Heiddeger e a questão da filosofia”
  1. gabrieldivan disse:

    Sempre penso nessa questao: UMA COISA seriam as contingencias historicas nas quais os pensadores estam SUBMERSOS e nao conseguem nem perceber, por vezes (ex: concepcoes politicas bizarras, “escravatura”, machismos, etc).

    VERDADE que houve muitos GENIOS que conseguiram romper as barreiras de seus proprios tempos e chega a ser meio estranho em aceitar facilmente que criaturas tao privilegiadas por vezes acatem preceitos e “ethos” tao imbecis, ainda que sejam parte indispensavel de um zeitgeist.

    Porem OUTRA COISA seriam as ESCOLHAS livres, conscientes e DETERMINADAS.

    Nesse ponto, varios dos “antigos” nao podem ser “acusados” de pedofilia (gregos, por ex.). Mas um nazismo genocida PATENTE…? NA CARA do sujeito?

    A importancia e a genialidade de Heidegger coloca um desafio e tanto: negar o que esse cara falou de BOM porque uma de suas escolhas de vida foi pessima? Ou rejeitar qualquer coisa que ele propoe em virtude de uma reprimenda politica a sua ideologia de vida IMBECIL?

  2. marlon disse:

    Nietzsche, racista?

    e a alma [no sentido de Seele] para mim continua sendo a questão mais importante. os “primitivos” morriam de medo da “perda da alma”. é precisamente o que acontece agora – com a diferença que as pessoas não se dão conta de que as “hiperalmas” que consomem são simulacros vazios que mascaram a perda.

    “Heidegger era um retardado mental incapaz de ver o que acontecia ao redor dele?” não, ele era um ser extremamente inteligente incapaz (principalmente porque ele não queria) de ver o que acontecia ao seu redor. o texto da Arendt, “Heidegger the Fox” (in Essays on Understanding, New York: Schocken Books), é a melhor (e mais sucinta) interpretação do caso que conheço.

    “Porque teimamos em insistir na transcendência da arte, na grandeza da obra (…). Talvez isso ainda seja parte de uma crença idiota no espírito humano e mesmo na idéia de transcendência (e é bizarro que estudantes de filosofia, eu também – eu principalmente-, ainda falem em transcendência quando ninguém mais realmente acredita em conto de fadas)”. a questão é precisamente essa. aliás, Nietzsche a aponta (e Arendt a retoma, via Nietzsche, em The life of the mind): quando morre o transcendente (o metafísico, “Deus”, o suprasensório), morre também o sensório, a base para qualquer raiz na realidade. e aí tudo é tomado por hiperrealidade, “não há fatos”, qualquer interpretação da realidade é possível etc. esse nihilismo é o terreno mais fértil para o totalitarismo. insistir na transcendência, no espírito humano, e nos “contos de fada” (os verdadeiros – que aliás eram tenebrosos, alguns, e foram censurados pelos Grimm), que carregam as narrativas simbólicas de nossas raízes – é precisamente o que se deveria fazer.

    voltando ao Heidegger: não o considero como “artista”. ele era um filósofo. e a forma como vejo a questão que ele aponta é: sua obra não vai responder as questões que tenho, pois olha aonde ela levou o próprio autor. (isso de forma geral). de qualquer maneira, eu acho chato pra burro ler esse cara.

  3. marlon disse:

    @ gabrieldivan: não foi “uma de suas escolhas de vida foi pessima”, foi A escolha. acho que nem 8 nem 80: nem rejeitar toda a obra, nem aceitá-la sem restrições. minha opinião é: por mais que haja elementos “bons” em sua obra, em sua totalidade ela não me serve, pois A escolha de Heidegger indica que ele não entendeu minimamente A questão de seu tempo (que aliás continua sendo A questão), que se cristalizou no totalitarismo – do qual ele foi parte ativa e militante. quem entendeu profundamente essa questão foi Arendt.

  4. marlon disse:

    hum, ficou confuso. com “em sua totalidade” quis dizer como pensamento filosófico, como uma forma de Weltanschauung. isso não impede que partes dessa obra sejam aproveitáveis (mas não a totalidade dela). por exemplo, Macchiavelli foi um filho da puta, mas entendeu muito bem pra onde se direcionava (e ele ajudou e muito a direcionar…) a política de sua época. nesse sentido ele tem valor. mas somente nesse sentido.

  5. Oi Marlon.
    Quatro da manha aqui e eu revisando um artigo sobre levinas e agamben.

    Imagina meu bom humor.

    Primeiro, valeu pela leitura.

    Gosto da Arendt. mas eu não entendo a relação dela com o Heidegger. Eu já li este texto que tu mencionas dela. Também li outros onde ela menciona o PLATONISMO Heideggeriano. Acho uma saída meio estranha, esta saída da Arendt. Wishy-Washy. Em-cima-do-murismo.

    MAS.

    Quando eu falei “artista” foi no sentido amplo, va lá.

    E

    Este lance, para mim, é mais uma questão de fazer sentido desta ambiguidade. Eu tambem nao acho que o Heidegger é um retardado mental. mas se ele não é um retardado mental, então a gente tem que admitir que ele era um homem capaz de fazer as escolhas que fez, e estas escolhas não podem ser separadas do que ele escreveu e sobretudo de COMO ele escreveu. O linguajar nazista na obra de Heidegger é perturbador. “É um reflexo do estilo do tempo dele”. Puh-lease O cara tem momentos, na década de 30-40 que só falta dizer que o sangue ariano está impregnado no território alemão. (não, não falta. ele diz isso. só não usa bem estas palavrinhas).

    Eu to aqui cercado de uma pilha de trabalhos em fenomenologia. Quatro deles são do Heidegger. Eu simplesmente não consigo fazer o tipo de filosofia que eu faço sem levar o bigodudo nazista à sério. Não dá. Não rola. Mas eu também preciso estar consciente do que o cara fez, o que ele defendeu e o quanto isso tá presente no trabalho dele.

    (tanto que cada vez mais me perturba a postura anti-democratica e anti-humanista do Agamben. E vejo cada vez mais no anarquismo politico dele um reflexo do territorialismo e anti-humanismo do nazi)

    Me perguntaste do velho bigode do seculo XIX

    Cara, nao me faz ir la na genealogia da moral pegar as coisas que o frederico escreve sobre os SEMITAS. Tu sabe, eu sei e a vó do badanha sabe. Lixo racista. Dá para fazer uma arquitetura ali por cima, dizer que não é bem por aí? Dá, dá para fazer qualquer coisa com o Nietzsche. Ano passado fiz um curso onde li trezentas e noventa e cinco interpretações do bigode. Uma em conflito com a outra. E tive que ouvir que nenhuma tava errada. Se isso não é a definição de ziriguidum, eu já não sei mais nada

    (eu avisei que tava de mal humor)

    Agora me dá um segundo que eu tenho que ir ali na conclusão do meu artigo avacalhar um pouco mais com o anarquista italiano que acha que a Democracia criou o totalitarismo do século passado.

  6. este teu ponto da percepcao de mundo é justamente o que me PERTURBA.
    vê bem, Machiavel viveu trocentos zilhões de anos atrás. Rousseau também. Todos estes caras eram completos otários. Aristóteles deveria ser uma pessoa deveras desagradável.

    Mas o regime que o Heidegger apoiou foi além das questões pessoais dele. O cara fudeu com a vida do Husserl – que é um filósofo IMENSAMENTE superior ao Heidegger e sim, marcos, eu disse isso, Husserl é trocentas vezes mais interessante que Heidegger (eu avisei que to de mal humor, já disse). O cara participou no expurgo de intelectuais judeus da faculdade. Ativamente. Tem evidência que até de queima de livro o cara participou.

    Isto fazem menos de 80 anos. Eu conheço pessoas – pessoas que eu admiro profundamente – que foram alunas do Heidegger. Inclusive pessoas de origem semita. O Tugendhat, cuja família passou o que passou na mão dos nazis, dedicou a obra prima dele PARA A MEMÓRIA DO HEIDEGGER. Eu Não sei o que pensar disso. Vai ver o cara tinha um carisma pessoal absurdo. Não sei.

    Mas o fato disso ser muito recente nos obriga, como a primeira geração que consegue olhar para o Heidegger com certa distância, a colocar os pingos nos is. Não consigo pedir isso das pessoas que tiveram relações pessoais com o cara. De todos os intelectuais judeus que conviveram com o Heidegger só o Jonas fez uma denuncia mais FODA (e permanece um dos documentos mais FANTASTICOS sobre o nazismo do Heidegger, diga-se de passagem).

    Enfim, sério, eu preciso voltar ali para a conclusão do artigo.

  7. E Marlon. Sobre simulacros: evite :)

  8. marlon disse:

    bá, mas tu ESCREVE, hein tchê? admiro muito. eu demoro meia hora pra escrever um comentário.
    buenas, vamlá. a Arendt se posiciona explicitamente em relação ao Heidegger em vários pontos de sua (dela) obra. por exemplo, num texto do Essays (agora não lembro qual) ela analisa a participação da intelectualidade alemã no nazismo, e diz que Heidegger tentou criar uma filosofia de base para o nazismo. o problema é que os nazis não tavam nem aí com isso – é muita falta de visão pensar que uma oclocracia nihilista e totalitária daria valor por muito tempo a qualquer coisa intelectual (que não servisse exclusivamente como propaganda, que deveria mudar constantemente – o que é o exato oposto de uma “base” filosófica). meu entendimento da relação dela com o Heidegger é mais ou menos o que escrevi como minha opinião: ela entendeu que o cara se perdeu, que há muitos pontos em sua obra e em sua vida que já delineavam isso (por exemplo, a ênfase na morte); mas isso não impediu que ela pegasse coisas da obra do cara (por exemplo, a ideia de que o pensamento não constrói nada – ela começa o The life of the mind com uma citação do Heidegger sobre isso), mas sempre mantendo uma postura crítica em relação ao “todo”. não é em-cima-do-murismo, pra mim.
    pues, sobre o Heidegger: exactly. se um cara como ele, que deveria ser salvaguarda da humanidade (pelo intelecto, pela escrita etc.) vira um nazi ativo e convicto; e um Eichmann, que era um cidadão e pai de família exemplar (até sabia Kant, veja só! – apesar de converter o imperativo numa coisa totalitária: os atos tem de ser concordantes com uma lei geral, mas no caso dele essa lei é a do Führer…) vira um instrumento genocida – o que dirás do que temos hoje?? (novamente: é bem pior do que Alemanha 1930).
    o Agamben é cria do Foucault. e como ele, rouba coisas da Arendt para reduzí-las à sua obsessão com PODER (como Herrschaft, dominação, somente). por exemplo, “biopolítica” não existe e não pode existir em Arendt, pois seu fim lógico é o totalitarismo e totalitarismo é a morte de toda política. “política” para Arendt vai na direção da escolha e do discurso livres de cada um, que em coletividade constroem coisas em comum (= ação). política para Foucault e Agamben são os jogos de poder (e resistência) no sentido de dominação (e nunca se sai disso). ao nunca sair disso, não há saída possível do totalitarismo. se se parte de um Hobbes e de um Freud, por exemplo (homo homini lupus), nunca se sai da dominação quasi-totalitária – não há espaço para nada mais, aliás nem se pode ver algo além.
    pior que não lembro mais das minhas leituras da Genealogia da Moral. mas lembro de ter lido comentaristas dizerem (a propósito do uso de Nietzsche pelos nazis) que Nietzsche tinha nojo de anti-semitas e do nacionalismo alemão.
    o ziriguidum impera, como sabes. aqui também.
    não acho que Machiavel tenha sido “otário” foi muito esperto, aliás. forçando um pouco, eu sou extremamente crítico de Hobbes, e nunca o adotaria como “explicação” do mundo e dos homens. mas, como disse Arendt, Hobbes sabia que o homem burguês não hesitaria em buscar um poder ilimitado para servir de lastro a uma acumulação ilimitada. ele constrói uma filosofia em cima disso, e esse é o valor dele. para entender nossa época, tem que compreender o cara (para usar um exemplo mais claro, o behaviorismo é das piores coisas que já aconteceram à ciência; mas triunfou porque a tendência mais forte era de os homens portarem-se exatamente como ratos engaiolados).
    sobre o expurgo de intelectuais judeus, é verdade. mas ele também ajudou alguns outros. a coisa é complicada. mas não me consta que ele tivesse um carisma absurdo. bueno, o suficiente pra comer a Arendt quando ela tinha uns 18. : )
    e cara, a teoria dos simulacros (Baudrillard E Eco) é das mais úteis para entender o que está aí. (não concordo com a postura final do Baudrillard, de que a realidade está morta e temos que conviver com isso, jogar com os simulacros, mas essa é outra história).
    anyways, boa conclusão de artigo for ya.

  9. marlon disse:

    putz, olha o nome da cidade do tornado: SLAUGHTERVILLE.

    spooky.

  10. marcosfanton disse:

    Cara,
    eu achei este o melhor post da tua série sobre o nazi bigodudo.
    O que eu entendi dele é que tu colocas a seguinte pergunta: é relevante a convicção política e os atos políticos de determinado indivíduo para eu me utilizar de seus serviços, de suas obras, etc.?
    Se eu te entendi bem a tua questão, eu diria o seguinte:
    Tu não concordarias que haveria uma diferença de níveis nesta discussão toda? Por exemplo, quando tu faz filosofia, tu não procura determinado tipo de questionamento? Determinadas questões teóricas que estão em jogo?
    Eu digo isso, porque quando tu argumentas sobre o nazismo de Heidegger, tu desqualifica a pessoa de Heidegger juntamente com os seus textos. E pronto. Mas, então, me diz: a partir de quais textos tu iria deixar de ler Heidegger? Desde que ele nasceu ele era nazista? Os primeiros textos dele são nazistas? Se não forem, eles perdem a possibilidade de leitura, porque ele se tornou nazista?
    Eu digo isto, porque o título do teu post mostra justamente uma inversão do debate. É comum lermos “Heidegger e a questão do nazismo”, que diz, p.ex., que um filósofo tornou-se nazista. Mas, parece que tu quer mostrar o contrário com “Heidegger e a questão da filosofia”: que um NAZISTA virou FILÓSOFO. Portanto, parece que tu estás colocando, acima de tudo, a posição política e os atos políticos.
    E, nesse sentido, a posição política (e os atos, principalmente) são determinantes para desqualificar a minha interação completa com qualquer pessoa.
    Porém, o que tu fez o post inteiro? Não foi criticar a atitude covarde e nazista de Heidegger? Ok, isto é positivo, eu concordo praticamente com tudo que tu falou sobre ele.
    Mas, de que isto adianta pro teu trabalho em filosofia? Se tu ler Heidegger, tu vai estar apoiando atitudes nazistas? Por quê?
    Tu mencionou o exemplo do teu mecânico ou encanador. Ok. Mas, e o cara que construiu tua casa? Que confeccionou os livros nazistas do Heidegger? Que fabricou a tua gilete? Tu conseguiria saber disso sobre um único objeto da tua casa? E a Hannah Arendt, tu deixaria de ler porque ela trepou com o nazista? Estas perguntas podem ser meio retóricas, porque tentam levar ao absurdo a tua colocação. Mas, eu não quero isso. Eu quero te perguntar se tu não acharia que seria possível separar estas questões. De, ao mesmo tempo, mostrar o nazismo de Heidegger e como ele se apresentou nos textos dele, tendo origem até mesmo no conceito de VERDADE e DECISÃO (como o Tugendhat aponta, p.ex.), mas, ao mesmo tempo, poder aprender a partir de certos textos dele que não possuem este lado nazista.

  11. marlon disse:

    barbaridade. chique, a discussão aqui. (bem melhor do que na minha universidade).
    vamos por partes. sim, há uma diferença de níveis. foi isso que tentei dizer (e perdi tenebrosamente). se o cidadão foi nazista, pedófilo ou o que seja, não quer dizer que temos que queimar todos seus livros ou rejeitar tudo o que fez. (isso é um pouquinho próximo do nazismo, aliás – todo maniqueísmo é). podemos ver valor em algumas coisas do cidadão (porque raras pessoas são totalmente más). mas não se pode perder de vista, no caso de RESPOSTAS DE VIDA, que aliás é o que me interessa, onde a coisa foi parar. por isso que tentei discutir esse ponto de vista: há coisas bem aproveitáveis em Heidegger. mas pra mim, obviamente sua filosofia não pode servir como um ponto de partida, como uma Weltanschauung, pois sei bem onde ela foi parar. (o caso de Nietzsche é outra coisa, por causa da sífilis, da mãe e da irmã dele, da não-receptividade que teve etc. – além das suas escolhas. de qualquer forma, Nietzsche como Weltanschauung também não dá, pois sei onde ele foi parar com ela. mas isso não impede que INUMERAS coisas em Nietzsche sejam não somente aproveitáveis mas geniais. aliás foi ele quem afirmou toda essa história, de que nas humanas há que se ter em consideração sempre a biografia de quem fala).

    voltando ao Heidegger: não, ele virou nazista depois de 1930. (1931, se não me engano). mas a questão é que o sistema que ele construiu (como filosofia, primariamente, mas como Weltanschauung – sorry por repetir tanto esse clichê teutônico) não impediu – talvez tenha inclusive facilitado, o que é minha opinião – que ele caísse no e pelo nazismo. o SISTEMA, não toda e qualquer ideia dele. Platão talvez seria outro exemplo: não vamos jogar no lixo um dos maiores pensadores da humanidade porque o cara defendia o governo de filósofos (pior coisa, ghdfjsahdjkas) e a escravidão. pode-se jogar no lixo o que tem a ver com isso (e umas coisitas relacionadas mais secundariamente), mas não toda a obra.

    acho que derivar a ideia de que o Fabs afirma que o nazista tem preponderância sobre o filósofo a partir da ordem dos fatores no título do texto é muita macon… ehrm, pós-modernidade pra cachola.

    enfim. too fucking tired. mas massa a discussão, valeu.

  12. marcosfanton disse:

    Engraçado ouvir que sou pós-moderno de um cara que lê Nietzsche e acha que ele tem algo relevante para a filosofia, que fala em “hiperalmas” e “simulacros vazios”, que acha que filosofia é uma forma de Weltanschaaung e que quer encontrar um tipo de filosofia pra viver melhor. Já tentou Paulo Coelho?
    A questão que eu quis argumentar sobre os níveis tem dois vieses: por um lado, é que separemos, na análise teórica de questões filosóficas, os argumentos do autor. Assim, Heidegger vai aparecer como um nazista, somente quando ele ESCREVER ou ARGUMENTAR a favor do nazismo. Como o Fabs fez no início do post, colocando citações. Por outro lado, seria de se separar entre a profissão do Heidegger e os atos e pensamentos políticos dele como um indíviduo dentro de uma sociedade. Assim, eu disse que o FAbs inverte o debate, não APENAS por causa do título (como o loko de crack falou ali em cima), mas por causa de toda a argumentação que ele coloca. Ok? Ok.

  13. marlon disse:

    chill, dude. não quis ofender, nem te chamar de pós-moderno. quanto ao Nietzsche, ele não só tem muita coisa de relevante para a filosofia (e para as ciências de modo geral), mas foi o maior filósofo do século 19. (Kant foi o do século 18). eu não quero encontrar um tipo de “filosofia” nesse sentido em que falas – no sentido grego, sim – até porque eu já a tenho, mas ela vem de outros lugares. “hiperalmas” foi pra juntar o termo antigo (Seele), que acho que deveria ser resgatado, com o “hiper” de Baudrillard, no sentido de “hiperrealidade”. o simulacro é vazio por definição, mas achei que não caía mal um pleonasmo. Paulo Coelho é lixo. mas não me ofendo com tua asserção, porque sei muito bem que minha interpretação desses autores, e da contemporaneidade, não é em absoluto “loucura de crack”.
    a tua solução eu considero errônea. não se pode separar totalmente a biografia de um pensador das humanas da sua obra. nunca vais entender totalmente o Übermensch do Nietzsche se não levares em consideração a vida dele. ou mesmo a ética de Kant, tens de considerar a vida do Immanuel. ou a política de Platão. ad nauseum.
    e mencionei a questão do título do post por causa da forma com que tu o fizeste: “Eu digo isto, porque o título do teu post mostra justamente uma inversão do debate”.

  14. Oi turminha.
    Desculpem a demora. Eu estava catando piolhos de macacos.
    Rapidinho, tenho que dormir:

    Olha só, eu não afirmo que uma coisa supervêm a outra “filósofo-pessoa”. Eu questiono o seguinte: por que a gente SEQUER pergunta isso no caso de artistas? E é uma ambivalência que vai além do Heidegger. A gente tende a ler Rimbaud, muito embora ele fosse um traficante de escravos. A gente tende a esquecer que Dostoiévsky era um merda. Que Einsten batia na esposa. Que Marx tinha furúnculo na bunda (se isso não é falha de caráter, eu não sei mais nada).

    Mas não temos estas ambivalencias com nossos encanadores, mecanicos ou coisa parecida. Se tu sabe que teu encanador é anti-semita, tu manda ele embora da tua casa. Tu não te pergunta “mas os encanamentos dele são tão bons!”. Não, tu manda ele ir tomar no cu. Se teu cabelereiro faz um comentário racista, odioso, tu te levanta e vai embora sem pagar. Tu não queres amigos que fazem comentários odiosos sobre mulheres. Que acham que homosexuais são a escória da humanidade. Nada disso.

    E no entanto, a gente releva tudo isso com o artista, com o filósofo, com o cara que supostamente sabe algo que tu não sabe. Esta ambivalência é meio bizarra. E por isso que eu digo que ela não é minha, ela é nossa. Talvez ela indique os problemas de um perfeccionismo moral. Mas eu não acho que é pedir muito que uma pessoa não seja odiosa, não deseje que pessoas morram ou sofram. Tipo, é um mínimo BEM mínimo este. Porque a gente deveria deixar ele de lado com esta gente que supostamente é tão talentosa?

    Como eu disse, o encanador nazista faz encanamentos REALMENTE bons.

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