Quem precisa de filosofia?

Já falei como entendo a tal da utilidade da filosofia neste blog. Várias vezes. Não vou voltar para este assunto.

O departamento de Middlebury, na Inglaterra, está para fechar. Já sabia da história tinha tempo, mas estes dias a coisa me atingiu de forma mais, digamos, pessoal. Foi assim: meu chefe chega para mim e,

“podemos colocar o release de apoio da SPEP (sociedade de fenomenologia e filosofia existencial, não perguntem) para os nossos colegas em Middlebury no site do Centro?”

“claro”

Até agora o chefe (evitando o google) não me passou o tal do release. Mas fiquei preocupado. Motivo? Claro, claro.

O motivo é o seguinte: eu não me importo.

Como assim? Assim: eu acho que não tem drama nenhum nesta história. Um departamento de filosofia está fechando. Grande merda. Trocentas mil pessoas perdem emprego todos os dias por causa da crise, não consigo ver porque diabos universidades deveriam estar imunes a tendência.

Claro, o paradigma de mercado não é necessariamente o melhor para tudo. Por exemplo, acho economia de mercado uma péssima idéia para relações pessoais, acho péssimo como teoria moral e acho um lixo completo como paradigma para saúde. Mas cabe um pouco de contexto sobre a questão de Middlebury.

Muito bem, então o Chomsky tá apoiando que não fechem. A SPEP tá apoiando. Mas eu quero saber o que a Universidade de Filosofia de Middlebury significa na vida cultural de pessoas fora da universidade de filosofia de middlebury. Talvez atividade intelectual-acadêmica tenha importância política-social, acho que até dá para dizer que tem (países com menos liberdade intelectual-acadêmica são, de fato, menos desenvolvidos). Mas volto a perguntar, em Middlebury, o que isso tem a ver com a faculdade de filosofia?

Talvez um departamento de filosofia não precise seguir as regras de mercado. E talvez. Nada impede que a filosofia se beneficie de uma economia de mercado (embora esta temporada nos Estados Unidos tem me deixado cético com relação aos benefícios de uma perspectiva de mercado para a produção acadêmica, especialmente porque a produção acadêmica, nas humanas, ao contrário das exatas, tende ao longo prazo – coisa que a economia de mercado, um pouco mais voltada para o aqui-e-agora, entende pouco). Só que é o seguinte: a produção filosófica já se beneficiou do modelo de mercado.

Como assim? Até bem pouco tempo atrás o perfil de quem fazia filosofia era OU de filinho de papai vivendo de herança, OU de gente confinada em conventos. A idéia de alguém com o meu perfil, ou o perfil do Walter (e acho muito positivo que transformistas sejam vistos com olhos sem preconceitos no meio acadêmico), em um departamento de filosofia era aberrante, impossível, até bem pouco tempo. Mais ainda: existiu uma proliferação de revistas, produção e tudo mais.

Então acho bom ir com cautela nesta reclamação da perspectiva de mercado. Os últimos 50 anos foram excelentes para as humanidades, pelo menos do ponto de vista de acessibilidade da produção e de possibilidade de produção. Entendido? Ótimo. Pois bem, voltamos para Middlebury?

Quem se beneficia da faculdade lá? O departamento alega estar sendo perseguido por fazer filosofia continental e o caralho, os intelectuais organizam um “protesto anti-capitalista orgânic0-democrático pela liberdade expressional-intelectual eclética na sociedade do espetáculo” enquanto aqueles que teriam “interesse” na propagação do tal saber filosófico estão cagando e andando. Não acho que filosofia tenha que ter função social na pesquisa INDIVIDUAL, mas um departamento tem obrigação de se organizar de uma forma a se inserir dentro de uma comunidade – para além dos estudantes, alunos de graduação e esta camarilla toda. Vamos combinar: a tal da community of scholars, que é um fim em si mesmo, que o Pierce tanto defendeu, é uma grande e solene piada. Community of scholars? Give me a fucking break.

Então é o seguinte: se tudo que Middlebury consegue é um bando de estudante de filosofia e professores de filosofia chorando que o departamento vai fechar, sinto muito: o departamento deve fechar. Se o departamento é um fim em si mesmo, ele deve fechar. “Mas por este critério, o departamento de física também deveria fechar!” Olha, me mostra um departamento de física sem repercussão socio-política e eu te mostro um departamento de física falido.

Claro, parte deste debate acaba sendo um debate chamado “quem precisa de universidade?”. Com o crescimento da classe média, a universidade virou uma continuação do ensino médio, uma espécie de “colegião”. Não é exatamente ruim isso. Só que a coisa fica bizarra, porque ao mesmo tempo insere um elemento alienígena na formação acadêmia “vou para a universidade aprender uma profissão” e por outro cria uma série de expectativas equivocadas do tipo “pague e passe”. A bizarria chegou num ponto tamanho que todas as cidades de tamanho médio/grande começaram a verificar não apenas uma proliferação de universidades, mas de cursos. Então qualquer cidade de médio porte já te oferece uns seis ou sete cursos diferentes, e vamos criando esta cambada de gente com diploma e que não sabe muito bem o que fazer com aquele troço – e nem que diabos acabou de fazer nos últimos quatro anos.

Middlebury, no departamento de filosofia, é um braço do problema todo. A questão não é se a filosofia de Middlebury pode sobreviver, mas se a universidade de Middlebury precisa de um departamento de filosofia to begin with. A pergunta acaba implicando “que faculdade Middlebury precisa?”, “que faculdade Torres precisa?”, e por aí vai. O interessante é que foi uma demanda de mercado que permitiu esta proliferação toda, também. Pelo menos no Brasil, verificou-se por um bom tempo que faculdade era um BAITA NEGÓCIO. Relativamente pouco investimento e uma cambada de grana de volta! Daí começamos a formar professores para dar conta da demanda e bada-bim, bada-bum! Habemus inclusão acadêmica. “Inclusão” “acadêmica”. E agora todos estes departamentos começam a fechar e o povo indica uma “emergência da economia de mercado”.

Para mim, é por aqui: se a questão da universidade vai ser resolvida, ela não pode ser resolvida por pessoas dentro da universidade, apenas. E talvez esta seja a tendência que Middlebury represente: pessoas vão perder o emprego, porque o que elas fazem não é mais identificado como importante dentro de uma determinada comunidade. Vários departamentos  nos Estados Unidos estão fechando ou passando por reformas de pessoal e de estruturação profundas, e não só na filosofia. De uma certa forma, a comunidade acadêmica americana foi dar conta da demanda da classe média emergente nos anos 80-90. Agora, a classe média emergente faliu. Não tem mais dinheiro para universidade. Daí, todos aqueles departamentos que surgiram como forças neste período fizeram ploft.

Rezem para a nossa recém-emergente classe média não inventar de falir, portanto. Vai ter muito departamento tendo que diminuir de tamanho e muita faculdade fechando. E, por sinal, não vai ser drama nenhum. Permitam-me lembrar: mais gente perdeu o emprego ano passado do que em períodos de 5 anos nos Estados Unidos, e a inglaterra deve ter passado por uma tendência parecida. Não tem NENHUM motivo para a gente achar que departamentos de filosofia devem estar imunes. Livros de filosofia? Os clássicos estiveram aí por 150 anos (o último que eu consigo pensar tem por aí), eles não vão ir para lugar algum. E as pessoas em Middlebury, caso se interessem, podem sempre se debruçar sobre eles. Se não interessa? Oh, well…

(post mais sem sentido, mas vá-lá, preciso fazer algo com este blog de vez em quando)

Comments
5 Responses to “Quem precisa de filosofia?”
  1. Marcelo disse:

    Paradigma de mercado não descreve relação intepessoal? Relações interpessoais podem perfeitamente ser explicadas pelo paradigma do restaurante.

    Tu podes levar a vida como um buffet: vai ali, te serve, come um pouquinho daqui, um pouquinho dali.
    Ou tu podes acreditar no principe encantado e ir “de” a la carte: Tu escolhe bem, te compromete com a escolha, espera um tempão, paga caro e come só aquilo.
    Ou, quando tu é rockstar, tu tá num rodízio… a comida se oferece e tu só diz sim ou não.

    Também tem a tele-entrega e o RU, mas dá pra entender.

  2. gabrieldivan disse:

    Se realmente EXISTE uma perseguicao politico-ideologica-academica e algum tipo de pressao oficial ou, pior, EXTRA-oficial para “calar” Middleburry, esse assunto realmente IMPORTA.

    Se nao, como diria meu pai que hoje aniversaria, “VAO PRA PUTA QUE O PARIU ANTES QUE EU ME ESQUECA”.

  3. marlon disse:

    Fabs,

    escrevi o comentário aquele, mas não consigo achar teu e-mail. [tu não tem lattes, tchê??]. podes mandar um mail pra marlonx73 [arroba] gmail [dot] com? gracias.

  4. primogênito disse:

    É isso aí, Fá!
    Pra quê departamento de filosofia, se os melhores “filósofos” vieram do Direito?

    obs.: tô tentando falar contigo por e-mail, mas não tenho resposta… Fabrício, Oh! Fabrício, ondes estás que não respondes?
    Em que sala, em que auditório, em que biblioteca te escondes?

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