Reflexões sobre um teste

Fazem três semanas que recebi os resultados dos preliminary examinations aqui da SIUC. Os prelims são uma série de testes que todos os estudantes em um curso de PhD são obrigados a fazer antes de virarem “candidatos”, ou seja, antes de virarem o “cabo da boa esperança” que separa “alunos” de “não-alunos”. Em um certo sentido, os prelims te garantem uma autorização para não assistir mais aulas e não se ocupar com nada que não seja o teu projeto de tese.

Na filosofia da SIUC, o teste é dividido em dois dias e cinco partes. Metafísica e Epistemologia Clássica (I), Epistemologia Contemporânea (II) e Moral (III), Politica (IV) e Estética (V). A bibliografia básica para o teste ultrapassa cem livros, começando nos pré-socráticos e terminando em epistemologia contemporânea (nem tão contemporânea assim, na realidade, mas deixa quieto).  O aluno é obrigado a responder pelo menos uma pergunta em cada sessão e precisa responder no mínimo duas perguntas em epistemologia e metafísica clássica.  O teste geralmente oferece algo entre 5 e 9 perguntas por sessão, que deveriam variar pouco em termos de dificuldade e generalidade.

A minha experiência com o teste foi a seguinte: embora a bibliografia básica de estudo ultrapasse os 100 livros, era possível responder o teste com um conhecimento restrito a Dewey a Platão (via Dewey). As perguntas eram estranhas, especialmente no contexto da filosofia contemporânea. Por exemplo, na prova de metafísica contemporânea não havia nenhuma pergunta sobre superveniência, sobre determinismo e vontade ou sobre OLP (ordinary language philosophy). Haviam, no entanto, três perguntas sobre Dewey (uma sobre Dewey e QUINE) e uma pergunta sobre fenomenologia em Husserl e Pierce que quase me fez rir alto durante o teste.

Acabei me saindo bem no teste de metafísica (muito melhor que eu esperava) e quase bombei o teste de filosofia politica, moral e estetica (principalmente porque um dos leitores não aceitou minha interpretação de Walter Benjamin. Go figure).  Estudei, exatamente, uma semana e meia para o teste (dez dias) nos quais estudei Aristóteles e apenas Aristóteles. Foi uma boa pedida. No entanto, se eu tivesse estudado bastante para o teste teria me sentido completamente engabelado pelas perguntas. Foram perguntas gerais ou bizarras, sem nenhum sentido para as discussões atuais em filosofia. Uma boa pergunta sobre epistemologia moral apareceu maquiada em uma discussão sobre conhecimento e agir-moral e uma outra sobre liberdade partiu do princípio que não havia nenhuma para os Gregos (imagino que para essa gente a questão Socrática seja uma discussão sobre, sei lá, a constipação do Platão).

No entanto, não estou pronto para dizer que o teste não seria uma iniciativa interessante no contexto brasileiro. Eis o que eu, bastante humildimente, gostaria de propor:

Um teste com bibliografia reduzida (entre dez e quinze livros) e que não se ocupasse com filosofia contemporânea parece uma boa idéia, poderíamos desenhar uma linha na publicação do Genealogia da Moral como ponto de corte. Mas quais livros? O problema todo é presumir que tu pode dizer para os teus alunos o que eles precisam ler. Esse paternalismo ainda é justificável em um curso de graduação, mas me parece bizarro na pós. Então, o que fazer?

A UCLA tem um modelo que eu acho fantástico. Funciona assim: Eles te dão um ano para preparar quatro artigos sobre problemas em diferentes movimentos filosóficos. Então o camarada escolhe uma determinada questão que ele curte, ou relacionada com o problema de pesquisa dele, e vai ter um ano para desenvolver quatro artigos sobre isso. Digamos, o camarada se ocupa com, sei lá, “obrigações morais”, então ele pode pegar como funciona isso em Aristóteles, Aquino, Hume e Rawls e desenvolver um artigo problematizando cada uma das vertentes. Os artigos tem que estar em nível publicável ao nível do ano. Se estiverem, parabéns, tu não é um asno e pode seguir para escrever tua tese.

O que acho especialmente bom no modelo da UCLA é que não existe uma imposição de tema ou de leitura. O aluno é livre para escolher os autores e temas que importam para ele, e vai se virar para argumentar de uma forma que demonstre habilidade “filosófica” o suficiente para “qualificar” o seu modo de leitura.

Creio que no contexto brasileiro uma iniciativa dessas seria extremamente proveitosa. Estamos formando um número espantoso de especialistas que não tem qualquer condição de dialogar fora da suas respectivas áreas de conhecimento. Uma série de filosofias auto-entituladas “de diálogo” são incapazes de compreender qualquer coisa fora da sua área (e isso não é sobre uma determinada filosofia, serve para qualquer “ismo”).

Tornar a formação dos alunos mais rigorosas, nesse sentido, me parece uma boa. Antes do camarada poder ir trabalhar, sei lá, o mal-estar da contemporaneidade no cinema de Woody Allen, ele vai ter que pelo menos demonstrar alguma habilidade com outras questões importantes para que se possa falar de mal-estar da contemporaneidade no cinema de Woody Allen. Como diz o grande professor Draiton, “para falar da anti-logica, o camarada tem que saber muito bem o que tá em jogo na lógica”.

Sem dúvida, um teste de dois dias, que tranca os alunos em uma sala por cinco horas e impõe uma série de perguntas bizarras não é a melhor forma de averiguar conhecimeno ou de ajudar na pesquisa alheia. Mas me parece importante trabalhar uma alternativa para além da imposição de “disciplinas obrigatórias” no doutorado e no mestrado, que geralmente são utilizadas por alunos como desculpa para ficarem fazendo nada ou atrapalhando a aula trazendo argumentos que nada tem a ver com o que está sendo discutido (e colocando os professores em situações manifestamente constrangedoras).

Update: Tatiana me corrige e diz que o modelo da UCLA que eu citei é da Ciencia Politica. Ela também me diz que são DOIS artigos publicaveis ao fim de UM SEMESTRE. Que segundo ela, “é um critério bem foda para Ciência Política”. Sigo achando melhor que o teste, no entanto. E sigo com a proposta dos quatro artigos pra filosofia.

Comments
9 Responses to “Reflexões sobre um teste”
  1. Tati disse:

    Entendo e concordo. Só tem um argumento do modelo atual que eu acho que a tua proposta não cobre, e é uma questão importante: Dependendo de como o teste foi escrito (não foi o caso do teu prelim, mas sim do meu) vc pode avaliar que todos os alunos aprovados tem uma base comum de conhecimento básico da disciplina. Um artigo livre, por melhor escrito que seja, não faz isso.

  2. Mas eu não entendo que mundo é esse que os professores americanos pensam que vivem onde é desejável avaliar os alunos de pós-graduação em uma base comum. Não era para a graduação fazer isso?

  3. Tati disse:

    Não acho necessáriamente negativo ter uma avaliação comum de conhecimentos considerados necessários em nível avançado. Tu acha que não deve haver uma série de autores e tópicos que todo doutor em filosofia consegue pelo menos elaborar uma boa aula de graduação? No final das contas, é quase uma ferramenta de controle do output do departamento.

    Como vc mesmo disse:

    “Creio que no contexto brasileiro uma iniciativa dessas seria extremamente proveitosa. Estamos formando um número espantoso de especialistas que não tem qualquer condição de dialogar fora da suas respectivas áreas de conhecimento. Uma série de filosofias auto-entituladas “de diálogo” são incapazes de compreender qualquer coisa fora da sua área (e isso não é sobre uma determinada filosofia, serve para qualquer “ismo”).

    Tornar a formação dos alunos mais rigorosas, nesse sentido, me parece uma boa. Antes do camarada poder ir trabalhar, sei lá, o mal-estar da contemporaneidade no cinema de Woody Allen, ele vai ter que pelo menos demonstrar alguma habilidade com outras questões importantes para que se possa falar de mal-estar da contemporaneidade no cinema de Woody Allen. Como diz o grande professor Draiton, “para falar da anti-logica, o camarada tem que saber muito bem o que tá em jogo na lógica”.”

    Não sei de que maneira artigos livres te garantem isso. No contexto brasileiro (falando de modo amplo) nós ja temos estes artigos sendo exigidos (e vc pode argumentar que as correções em si não são tão rigorosas, tudo bem), e eu não vejo nenhuma mudança drastica no cenário que vc descreveu de modo crítico.

  4. Moysés disse:

    “terminando em epistemologia contemporânea (nem tão contemporânea assim, na realidade, mas deixa quieto)”

    Achei legal essa parte.

    Não acho uma ideia ruim. Aliás, estou impressionado como as disciplinas sugam energia da tese. Acho isso desperdício.

  5. Mas os artigos só são livres “até ali”. Para que tu possa escrever um artigo decente sobre um autor, tu precisa ter domínio do contexto onde aquele sujeito (ou problema) surge. Não dá para enfiar uma “leitura pós-moderna e hiper-crítica dos valores Tomistas”. Ou até dá. Mas não vai ficar publicável.

  6. fabriciopontin disse:

    Esse lance das materias obrigatorias é uma faca de dois gumes, creio eu. Fui dispensado das cadeiras obrigatórias na SIUC, porque eu tinha “background” em filosofia analítica (na real, porque pedi). Mas não vou mentir e dizer que não gostei de fazer as obrigatórias da PUC, pelo contrário. Curti horrores. Mas não sei como eu me sentiria sobre isso no mestrado.

    No entanto, aqui as matérias que eu mais gostei foram justamente as que eu não teria me matriculado normalmente. Fiz um curso sobre Spinoza, no primeiro semestre, que foi extremamente importante pra minha formação, e eu não teria feito normalmente. Então não sei se NECESSARIAMENTE é uma perda de tempo, mas acho que pode ser. Especialmente nesse esquema de “faz as cadeiras obrigatórias, mas a avaliação é uma para todas” – que acho um tanto… ESTRANHO.

    Que vcs acham?

  7. fabriciopontin disse:

    Arf. “no mestrado” = “no doutorado”. FAIL.

  8. gabrieldivan disse:

    Haviamos conversado sobre isso e realmente me parece muito mais interessante a proposta de estimulo para produzir artigos do que a velha e mofada “prova”.

    Alguns problemas, apenas: uma multiplicidade de escolhas de opcoes literarias poderia vir a se chocar com o perfil do Programa em questao. Concordo que DIZER para o aluno de onde ele deve extrair CADA coisa mistura um certo paternalismo com uma especie de BRETE intelectual.

    Mas como controlar o PANDEMONIO que vai ser se nao houver minimas orientacoes? OK, podemos sustentar isso diante do quesito “plausibilidade filosofica” – se o cara quiser fundamentar coisas dispares com autores diferentes, MOSTRE que tem como e que eh GALO e pronto.

    Sim, em nivel de post-grad. a melhor pedida esta em fazer neguinho PRODUZIR.

    Mas, agora uma coisa concordo (e para o direito IDEM) – os cursos DEVEM ter um certo catalogo de obras classicas cuja leitura TEM QUE ser realizada, nem que seja sob chicote, e por isso a prova da SIUC serve, ao menos, como estimulo amedrontante (nao foi o teu caso heh)

  9. Pedro A. disse:

    Se vale um relato pessoal, no mestrado fui obrigado a fazer disciplinas obrigatórias. A maioria delas foi uma perda de tempo sem igual.

    Tive que ler muita bobagem; muita mesmo (um dos professores mandou escrever um paper de 5 páginas sobre uma coluna do Stephen Kanitz). No final se era obrigado a escrever artigos. Como eram temas que nao me interessavam, todos sairam como a minha face: um horror. Relendo eles hoje sinto vergonha de um dia ter escrito qualquer coisa.
    Enfim, se é para produzir, como disse o Divan ali em cima, essa fórmula de disciplinas obrigatórias está mais do que errada.

    Aqui, no doc, nao há aula, nao há seminários, nao há nada. O sujeito senta, lê, estuda, lê, senta e escreve. Dois, três anos depois, tá pronto. Os doutorandos nao sao estimulados a escrever artigos. Foco integral na tese.

    Os encontros com o orientador sao poucos. Segundo me disse um professor , “eu respeito a tua condicao de pesquisador e nao quero influenciar as tuas escolhas”. Quando se tem um problema de verdade, aqueles muros intransponíveis em determinada ideia, se marca um horário e ele ajuda.

    A correcao da tese é sempre fudida. Dificil vir alguma página sem uma anotacao crítica.

    Na banca é onde se exige esse conhecimento mais amplo que o Fabs fala. Tanto é que nao se é doutor e direito penal, direito tributário, direito canônico, etc. Se é doutor em direito.

    O nome da banca é genial: Rigorosum. Chega lá, senta, cinco professores comecam a perguntar sobre o direito. Qualquer área. E o sujeito se vira pra responder.
    Um deles é famoso por dar um fragmento (em latim) de uma passagem do direito romano e pedir para fazer a relacao com o artigo tal e tal do código civil. Quem nao é do direito romano ou do direito civil, dá uma rebolada e responde como der…

    Enfim, só pra deixar anotado as diferentes opcoes para “avaliar” os alunos de pós-graduacao.

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