Uma página

Olho para uma foto de uma criança pequena, em um picnic de verão, segurando a mão de sua irmã mais velha com uma mão enquanto a outra mão precariamente segura uma fatia enorme de melancia que a criança mal consegue morder. Aquela criança sou eu. Mas ela sou eu mesmo? Não lembro daquele dia de verão, não tenho nenhum acesso privilegiado sobre se é o caso que a criança conseguiu morder a fatia de melancia. É verdade que uma série delicada de eventos físicos contínuos podem ser traçados daquele corpo para o meu, nos autorizando a dizer que aquele corpo é meu; e talvez identidade corporal é tudo no que a nossa identidade pessoal consiste. Mas a persitência do corpo no tempo também apresenta dilemas filosóficos. A série de eventos físicos constituiu o meu corpo de forma completamente diferente daquele da criança; mesmo os átomos que fizeram parte do corpo dela não fazem mais parte do meu. E se nossos corpos são diferentes, nossos pontos de vista são ainda mais. Os meus são tão inacessíveis para ela – ela que tente ler a Ética! – como são os dela para mim. A forma de pensamento dela, prelinguistica, na maior parte escaparia minha compreensão.

E no entanto, ela sou eu, aquela coisinha no amontoado de areia. Ela continuou a existir, sobreviveu a sua doença infantil, o quase afogamento em uma contra-corrente na praia em Rockaway aos doze anos de idade e tantos outros dramas. Existem aventuras que provavelmente ela – ou seja, eu – não poderia passar e continuar a ser si-mesma. Seria então ainda outra pessoa, ou apenas não seria mais? Se eu perdesse todo o sentido de eu-mesma – seja por esquisofrenia, possessão demoníaca, um coma, ou demencia progressiva, qualquer coisa que pudesse me remover de eu-mesma -, seria então o caso que eu ainda estaria passando por esses problemas, ou não seria mais eu? Seria outra pessoa? Alguém?

Nesse caso, seria a morte uma dessas aventuras das quais eu não poderia emerger como eu-mesma? A irmã cuja a mão eu seguro na foto está morta. Eu penso todos os dias se ela ainda existe. Uma pessoa que um dia alguém amou parece de certa forma importante demais para simplesmente desaparecer completamente do mundo. Uma pessoa que alguém ama é um mundo, assim como sabemos que somos todos um mundo. Como pode ser que mundos como esses podem simplesmente cessar por completo? Mas se a minha irmã existe, então o que ela é, e o que faz ela de alguma forma idêntica a menina rindo ao lado da sua irmã menor naquele dia esquecido? Ela pode lembrar daquele dia enquanto eu não posso?

Rebecca Goldstein, Betraying Spinoza. p. 124-5. Minha tradução.

O livro todo é sensacional (ainda não terminei, mas é sensacional, acreditem). Mas valeria só por essa página.

Comments
One Response to “Uma página”
  1. érica disse:

    bah, que ótimo mesmo

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