Jogando Xadrez com computadores

Xadrez é um jogo de trocas. Também é um dos poucos jogos onde tu tem todas as opções possíveis na tua frente quando tu começa a jogar. Claro, calcular todas essas opções é outra história. Até hoje, nenhum computador conseguiu calcular todas os movimentos possíveis em um jogo de xadrez, quer dizer, todas as variáveis para todos os movimentos. No entanto, qualquer computador pessoal, hoje, consegue calcular e resolver as permutações de um jogador “humano”. Quero dizer, não existe um ser humano capaz de vencer um computador em um jogo de xadrez. O computador pode te deixar ganhar, ele pode programar para ignorar o melhor movimento possível diante do teu jogo. Mas ninguém é capaz de vencer um computador com um processador i3.

Na realidade, as competições deixaram de ser entre humanos e computadores. Os computadores agora competem entre si. E programadores não “ensinam” o computador a “jogar”, eles ensinam o computador a entender as variações de movimento e um objetivo “capturar rei”. Aí que a coisa fica interessante. Um computador jamais jogou Xadrez. Computadores resolvem problemas. No caso, o nome do problema é Xadrez e dois computadores brigam para ver quem resolve o problema mais rápido. Parece que na última competição o processador vencedor ganhou em coisa de 30 minutos.

Em 1997 o Deep Blue venceu o último jogo contra o Kasparov em uma hora. Kasparov, com certo grau de espiritualidade, disse que a máquina jogava o jogo de forma “vulgar”. O computador não se manifestou sobre o jogo do Kasparov.

Hoje eu tava lendo sobre esse novo prodígio do Xadrez. Um guri Noruegues de 21 anos que atualmente é primeiro no ranking mundial. O fedelho, entre outras coisas, caracterizou o jogo como uma questão de elegância e poesia. Não, eu também não sei o que isso significa. O interessante, no entanto, é que ele usou esse mesmo vocabulário para falar de números e de aritmética.

Acho interessante isso. Já vi programadores falando sobre código em termos de “elegância” e meu servidor (o pessoal do WordPress) tem o lema “programar é poesia”. A linguagem matemática, que ainda tá tentando definir os termos de uma linguagem perfeita, realmente remete à um certo tipo de organização e fraseamento “poético”.

Afinal,

Let f(x) and g(x) be two functions defined on some subset of the real numbers. One writes

if and only if, for sufficiently large values of xf(x) is at most a constant multiplied by g(x) in absolute value. That is, f(x) = O(g(x)) if and only if there exists a positive real number M and a real number x0 such that

In many contexts, the assumption that we are interested in the growth rate as the variable x goes to infinity is left unstated, and one writes more simply that f(x) = O(g(x)).

The notation can also be used to describe the behavior of f near some real number a (often, a = 0): we say

if and only if there exist positive numbers δ and M such that

If g(x) is non-zero for values of x sufficiently close to a, both of these definitions can be unified using the limit superior:

if and only if

Mas a outra coisa “interessante” nessa mesma discussão sobre Xadrez e a tensão entre ganhar um jogo e resolver um problema é a questão do blefe nessa parada toda. O xadrez, enquanto jogo, tem um elemento psicológico. “Esse cara tá sacrificando esse Bispo, ou esse filho da mãe joga mal, mesmo?”. Ele também tem um elemento de interesse “Filho da puta, não tinha pensado em jogar isso assim antes”. Com o computador, a coisa é mais simples: com qual velocidade eu consigo permutar as possibilidades de jogo e como consigo relacionar o movimento do meu “inimigo” com os jogos que tenho no meu arquivo. Antigamente, a gente chamava essa atitude de “agressiva”, que foi o que definiu o domínio soviético no jogo até, bem, até os computadores surgirem.

Mas ainda assim, para o computador qualquer problema vira um problema de “verdade”. Como assim? Assim ó: duas pessoas estão jogando, um computador analisando. A cada movimento que cada pessoa faz o computador vai dando uma porcentagem de vitória para cada um dos jogadores. Esse percentual é “verdade”. Não resta a menor dúvida que aquela pessoa jogou “errado” e abriu para uma jogada seguinte (no processador) que é necessária. Mas ainda que o outro jogador “veja” essa jogada (o xadrez sempre é aberto, é um full-information game), ele pode “escolher” uma outra. Pro computador, esse papo todo de escolha tem outro nome: erro.

Ainda assim, com o jogo 99.99% na mão de um jogador, o elemento psicológico pode virar a coisa para um empate. Ou uma vitória. Nesse artigo que li hoje, o guri tinha tido o caixão encomendado pelos computadores que “viam” o jogo. No entanto, o adversário não viu o mesmo jogo. Ou melhor, ele viu um jogo. Os computadores viram um problema matemático.

Quando a gente pergunta se a verdade importa, no fim das contas, a gente tá perguntando isso: quando falamos sobre o mundo lá fora, sobre as nossas opções sobre o mundo lá fora, tem uma forma certa de falar sobre isso? Quando a gente diz que matar é errado, importa que matar é errado? Ou estamos só dizendo que matar é errado? Ou matar é errado, às vezes. Não se o cara for um cuzão. Não se o cara tava apontando uma arma pra mim primeiro. Não se ele ganhou de mim no xadrez com um xeque pastor. Não se ele usou defesa-em-bloco. No fim das contas, a gente joga com a verdade contra o Universo. Mas para o universo a questão da verdade não é um jogo. Ela é uma questão para ser resolvida. Claro, assim como o computador o universo não se importa realmente com a resposta.

Mas a gente se importa? O pessoal que joga xadrez parece ter um respeito enorme pela “verdade” do jogo, pela forma de abordagem, colocação e posicionamento. Talvez ao chamar o computador de vulgar na resposta, eles estejam acusando o “display of power” (ANSELMO, Phil: 1989) do computador como um furacão. O computador resolve o problema da superpopulação com uma bomba de hidrogênio. Problema resolvido. O computador resolve o problema do xadrez com movimentos precisos, calculados e rápidos. O jogador de xadrez se importa com a elegância das peças. O computador acha isso uma viadagem. (na realidade, o computador não acha nada. A grande vantagem do computador é que ele sabe o jogo de uma forma que tu jamais poderia sonhar em saber).

O tabuleiro de xadrez, pro computador, é um jogo da velha gigante. Quando computadores “resolverem” o xadrez, todos os computadores do mundo, quando jogarem, vão terminar o jogo em empate. Assim como duas pessoas que sabem jogar jogo da velha vão sempre empatar o jogo. E sempre com uma variação “x” de movimentos.

A nossa briga com a questão da verdade é a mesma. Quantos movimentos eu preciso para saber se uma conduta é tortura? Como é que a gente sabe?  A gente se importa? Ou a gente só usa a nossa capacidade de falar sobre o mundo lá fora como uma capacidade de falar sobre o mundo lá fora, sem comprometimento algum. É uma questão interessante. Para o computador, no entanto, 42.

P.S.: primeira edição desse texto tinha um assassinato no código que foi arrumado tirando uma parte da sintaxe:

<blockquote><dl> <dd> </dd> </dl></blockquote>

que tava badernando tudo. Acho que é por aí, saca?

Comments
8 Responses to “Jogando Xadrez com computadores”
  1. Pedro disse:

    Quero ver o dia em que se chegar ao algoritmo que escreve aforismos da Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu e crônicas do Jabor e do LFV.
    Aí seremos desnecessários…

  2. gabrieldivan disse:

    A problematica aqui trazida traz algo muito, muito instigante, consigo. Talvez a definicao de “HUMANO” esteja em pensar um “ser que joga”. Um ser capaz “do ludico”, mais do que qualquer outro caractere-definidor.

    O computador tem um nivel de perfeicao que NAO PODE ser chamado de “jogar”, em dois niveis: primeiro, porque ele nao joga, como foi dito: ele apenas calcula e processa. Segundo porque ele nao compreenderia um distorcer nas probabilidades por motivos que vao do “emotivo” ao “raivoso” uma vez tendo calculado-as todas.

    Existe apenas uma “jogada” para o computador, paradoxalmente as 1001 (muito mais…) que ele armazena e “racionaliza” por segundo: aquela que se faz MAIS impenetravel e conduz para a vitoria.

    O BIGODUDO da Silsz-Maria dizia que somos seres definidos pela “capacidade de fazer promessas”. Quem sabe nao somos o que somos dado o fato de que JOGAMOS justamente sem processar 100% das consequencias? Jogamos MESMO e isso seria nossa marca maior.

    A ideia de questionar os fatos do mundo a partir de um “certo/errado” comparado a um “certo/errado” pensado na TEMPORALIDADE e na FATICIDADE foi win total.

    Necessarias mais consideracoes, mas, relevem: tive um dia dificil…

  3. Cynthia disse:

    Esse é o post mais nerd que eu quase não li da história.

  4. Cynthia disse:

    Senhor.

  5. marlon disse:

    Vulgar Display of Power é de 1992, seu herege.

    oduj xadrez.

  6. rodrigo disse:

    vc e um cara inteligente …!!eu tava lendo um artigo sobre computadores q joga xadrez usando arvore de 3 nives ..so q nao explica como e feito o calculo ….ou eu q nao tenha entendido…. gostaria q vc explicasse pra mim

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