Fear and loathing Wittgenstein

ou, contexto de cu é rola.

Years later, I’ve come to realize that there was a debate embodied here about the nature of language – of whether truth is socially constructed or whether ultimately concerns the relationship between language and reality. I feel very strongly, even though the world is unutterably insane, there is this idea that we can reach outside of that insanity and find truth, some kind of certainty  (Anos depois, eu percebo que existia um debate encarnado aqui, um debate sobre a natureza da linguagem- um debate questionando se a verdade é construída socialmente ou se ela, em última medida, reproduz uma relação entre linguagem e realidade. Eu me sinto muito seguro de que, muito embora o mundo seja sem sombra de dúvida insano, existe essa idéia que nós podemos alcançar fora dessa insanidade, e encontrar a verdade, algum tipo de certeza).  – Errol Morris, no new york times.

O Errol Morris, caso vocês não saibam, é um documentarista. Enquanto documentarista, é claro que a postura dele sobre a questão da verdade vai ser um tanto… decisiva. Quero dizer, para um cara que se propõe a fazer um documentário, é lógico que a verdade importa. E ela tem que importar para além de um certo contexto – ela não é a verdade para aquele cara, ela é a verdade que diz algo sobre algum fato lá fora e contra o qual tu pode te desesperar o quanto tu bem entender. Vai seguir sendo verdade.

Nessa série de cinco escritos para o New York Times, o Morris tenta argumentar contra algumas teses centrais no debate sobre o que é Verdade na epistemologia contemporânea – ou na filosofia contemporânea, se tu preferir. I don’t care. Primeiro, uma observação geral: esse lance que o Morris escreveu é o melhor resumo que eu já li em um jornal de qualquer questão de filosofia. De longe. Nunca vi nada feito com tanto cuidado, de forma tão didática e sobre um problema tão, na falta de uma palavra melhor, fudido.

Pois bem, o Morris se mete de cabeça na questão do paradoxo de Godel, na definição de incomensurabilidade (uia) no Kuhn e na paulada que Kripke trouxe ao escrever dois livrinhos. Um chamado “naming and necessity”, outro “on rules and private language”. De quebra, Morris traz a tona o que Wittgenstein significa para a filosofia contemporânea. Dica: ele é o filósofo mais importante do século XX.

Vou tentar dar uma resumida no Godel, no problema do Kripke com isso e tudo mais. Os epistemólogos podem reagir se acharem que cometi um assassinato com alguma coisa no debate.

Então, para o que interessa aqui, Godel é o cara responsável por demonstrar como um sistema, qualquer sistema, pode conter nas suas premissas as causas da sua contradição. Digamos, as premissas da democracia podem levar a eleição do candidato com menos votos.  Pensa em um software. Digamos que tu faz um software que vai executar uma tarefa “x” – abrir uma janela. No fim das contas, o software fecha janelas. Isso é o paradoxo do Godel.  Mas a questão aqui é que isso pode ser ampliado para qualquer sistema, inclusive para questões matemáticas. Especialmente.

Pois bem, existem várias formas de tentar esquivar esse problema do paradoxo. Ou do que chamam a “indecidibilidade”, a impossibilidade de “decidir”, de ter uma “solução” para um determinado “set”. Matemáticamente, quando tu chama um conjunto de indecidível, tu tá apontando para a impossibilidade lógica de chegar a uma “solução” para aquele conjunto. Isso pode ser derivado da imperícia léxica na expressão de um certo conjunto (pensem no Windows ME), ou na complexidade léxica do conjunto (pensem em Xadrez, ou na linguagem humana).

Kripke entra nessa parada com o pé na porta. E diz o seguinte: a nossa forma de expressão pode ser tão perfeita quanto a de um sistema matemático. Porque a nossa linguagem É a expressão de uma necessidade matemática. Nesse sentido, o que o Kripke faz é uma espécie de ontologia de sistemas. Para o Kripke, os termos que a gente usa para falar do mundo lá fora significam EXATAMENTE o objeto ao qual a gente se refere, ou eles não significam PORRA NENHUMA e são contingentes – digamos, a banana para a qual eu aponto É uma banana. Não é uma arma branca. Eu posso usar uma banana como uma arma branca, ou como um brinquedo sexual. Mas não tem mudança de paradigma. AINDA É UMA BANANA. A conexão da minha expressão “banana” e o objeto “banana” é totalmente necessária.

A questão aí briga também com o lance da incomensurabilidade (uia, de novo). O Kuhn, aquele viado que escreveu aquele livro cretino que tu fingiu que leu na tua cadeira de introdução à (coloque aqui o que tu estudou), tem essa idéia (Carlos, não me deixa mentir), de que qualquer expressão (Banana) tem que ser compreendida dentro dos critérios daquela expressão (fruta; fruta tropical; fruta tropical típica do hemisfério sul; fruta tropical típica do hemisfério sul bastante popular entre sodomitas) – fora deste contexto, dessa espécie de “zona de compreensão”, o entendimento da expressão está comprometido. Mais ainda, tu pode ter mudanças radicais no entendimento da expressão, da palavra, do conceito e seguir com o mesmo conceito. Ou seja, “banana” pode se referir a dois objetos completamente distintos no mundo (fruta tropical, nesse contexto. Walter Valdevino, naquele).

Morris, é claro, não dá uma banana para essa idéia. E daí ele mete o velho Wittgenstein, o segundo Wittgenstein, na parada. O inimigo é Wittgenstein, na cabeça do Morris, porque o Wittgenstein teria metido essa porcaria de relativismo no meio da coisa, e nos tirado do caminho do objetivismo.

O Morris defende, de forma absolutamente elegante, que o Wittgenstein (oi, vocês já pararam de ler, imagino? tô cagando, vou seguir) defende nas investigações filosóficas uma espécie de incompreensão mútua. Digamos, nos referimos a objetos no mundo desde uma perspectiva que não é comunicável fora daquela perspectiva. Lembram da incomensurabilidade? Pois é. Digamos, para o Wittgenstein eu não falo inglês. Eu JAMAIS falarei inglês. Eu falo português, mas usando os termos do inglês. Mesmo que um leão pudesse falar, a gente jamais iria compreender o que ele fala. Então table ~mesa. Vergonha ~shame. Todo tradutor é um cretino mentiroso sem vergonha na cara. Toda verdade de uma expressão está ligada apenas com o contexto no qual aquela expresão emerge. Com uma determinada construção de uma determinada realidade social. Não existe realidade. Existe realidade social. Não existem fatos, existem interpretações de coisas lá fora.

Essa leitura antropológica de Wittgenstein marcou o trabalho de muita gente, Geertz por exemplo. Mas Geertz parece ter compreendido uma coisa aqui que tá escapando do Morris. Ser um contextualista não é a mesma coisa que ser um relativista. Existem fatos para além das interpretações dos fatos, eu não creio que Wittgenstein teria discordado com a hipótese que existe uma forma de descrição adequada para além das múltiplas formas de descrição de objetos “out there”.

Como eu tinha colocado no post sobre Xadrez (e um saudoso abraço para todos que leram), a questão volta para a realidade de expressões, de descrições. Quando dizemos “torturar é errado” ou “matar bebês jogando eles contra a parede repetidas vezes é errado”, estamos expressando apenas um tipo de construção social, ou estamos dizendo algo que é verdade? E se dizemos “seres humanos não podem voar”, como fica?

Morris quer nos dizer que se levamos esse perspectivismo a sério, então temos que largar de mão, por exemplo, a possibilidade de narrar a história. Afinal, John Kennedy foi assassinado em Dallas e John Kennedy não morreu não podem ser verdade ao mesmo tempo. Não podem ser uma questão de contexto. Ou ele foi assassinado em Dallas, ou ele não morreu. As duas não podem ser o caso. A gente pode não saber qual é o caso, mas uma delas não é – isso a gente sabe. Inclusive, as duas podem não ser. A única coisa certa aí é que as duas não podem ser verdade ao mesmo tempo. Se elas podem, o trabalho do historiador é uma grande de uma piada. E, claro, do documentarista também.

Uma outra provocação interessante é o que a frase que eu citei ali em cima coloca na baila. “Algum grau de certeza”. Mas algum grau de certeza, Morris, é verdade? Eu tenho algum grau de certeza de que eu sou magro. Mas não sei se é verdade que sou magro. Tenho algum grau de certeza que estou em um escritório, “escrevendo” um texto. Mas e aí? É verdade? Bem, se a gente pode verificar, testar, reproduzir. Então é verdade. Mas só assim?

Se a nossa linguagem é um instrumento para reproduzir os estados de coisas no mundo (e tá aí uma coisa que os grandes filósofos na primeira metade do século XX parecem concordar), então temos que ter alguma dimensão de que é um instrumento meio quebrado (e o velho Espinosa, limpando lentes para os outros, parece ter percebido isso). Claro, a saída de alguém como o Kripke é brilhante na medida que diz “então vamos restringir o campo de significados, vamos estabelecer o significado das expressões e partir daí.” É uma saída parecida com restringir o número de pessoas nas quais tu pode votar, para evitar eleger um psicopata (geralmente falha, eu sei).

Mas a tensão é palpável na medida que ninguém quer ser o cara dizendo “tá tudo bem aceitar que mulheres são inferiores a homens. Nesse contexto”. Claro, o Armadinhojad quer ser esse cara. Mas parece cada vez mais covarde querer apenas dizer “bem, é uma certa concepção de mundo”. Não queremos dizer mais? Não queremos dizer que é verdade que Armadinhojah está errado ao dizer isso? Independente de um pedido desesperado por um “regime de verdade”. Não. Tá errado.

Então, parece, que tem esse elemento que segue mensurável, segue comunicável, apesar dessas voltas de texto, contexto e semânticas. Um elemento que resiste essas tentativas de “contextualização”. Em um sentido rigoroso, é isso aí que o Morris parece tá chamando de verdade. E parece ser o que muita gente tá apontando que faz parte de todas nossas expressões sobre o mundo. Todas elas tem uma necessidade, tem um caráter verdadeiro. A gente só não sabe todos eles.

Comments
4 Responses to “Fear and loathing Wittgenstein”
  1. Pedro disse:

    Fabs,
    umas pequenas provocacoes:
    para falar de “verdade” ou , vá lá, “consistência dentro dos sistemas” tu utiliza exemplos banais.
    Uma banana é uma banana e nao será um Valdevino. Kennedy está morto (assassinado) ou vivo, ou mesmo morto por causas naturais, etc. Ok? Ok.
    O problema é quando aparecem palavras cuja “significacao” nao seja tao clara.

    Puxando pra minha banda:
    é “verdade” que quando morre o presidente, a Constituicao manda que seja sucedido pelo vice-presidente. A definicao de quem é o vice é absolutamente clara e nao apresenta problemas. Vice-presidente é quem foi eleito como tal e nao o quarterback do 49ers (esse exemplo nao é meu, é do Schauer).

    Mas nao é, da mesma forma, “verdade” que “cruel and unusual punishment” proibam a pena de morte. Novamente, a definicao de cruel passa por uma “contextualizacao”, nao?!

    ” É verdade? Bem, se a gente pode verificar, testar, reproduzir. Então é verdade. Mas só assim?”
    Em alguns casos, (in)felizmente, apenas com a eleicao de determinados critérios, vai ser possível verificar a “verdade” de algo. E aqui teremos as coisas auto-evidentes e as nem-tao-auto-evidentes-assim.

    “E parece ser o que muita gente tá apontando que faz parte de todas nossas expressões sobre o mundo. Todas elas tem uma necessidade, tem um caráter verdadeiro. A gente só não sabe todos eles.”
    E nem vai poder saber. Era verdade quando alguém apontava e dizia “livro” pra um volume de 900 páginas em 1452. Da mesma forma em 1700. E continua sendo agora quando aponta prum Kindle. Ou nao?!

  2. Me parece que um Kindle só pode ser um livro se tu recontextualizar o que significa um livro. Isso não tá fora das possibilidades, nem prum cara como o Kripke. Tu pode inserir novos “caracteres”, dentro de um “set”. Assim como tu pode fazer um update dentro de um software – incluindo novas coisas, novos referentes, novas “regras”. Contanto que as novas regras não entrem em conflito com velhas regras (nesse sentido, tu vai ter um bug). Quero dizer, a definição de “livro” não pode ser ao mesmo tempo “precisa ter papel” e “não precisa ter papel”. Alguma coisa ae vai ter que cair. Deixar o “set” que define “livro”.

    Esse papo de auto-evidente, pedrão, é um lance complicado pácas. Auto-evidente PARA QUEM, cara pálida? Claro, tu sempre pode demonstrar. “Minha prova é que eu vi isso. Minah prova é que eu senti isso. Minha prova é que o prédio tá de pé”. Mas mesmo auto-evidente, parece, exige algum tipo de demonstração. De referente. Tu não vai ter o auto-evidente sem o objeto do qual se pretende demonstrar a evidência.

    Daí a dificuldade com o direito, por exemplo. Como faz quando não existe objeto? O problema dos naturalistas, no direito, é que eles não tem como responder essa pergunta de forma satisfatória. “A verdade está no objeto”. Pois bem, qual é o objeto do direito? A constituição? Bom, daĩ temos uma solução naturalista apenas nos termos de alguém como o Kripke (e não estou certo que Kripke é um naturalista, com a palavra os epistemólogos). Daí tu pode dizer: pois bem, jurisprudência e constituição CONSTITUEM um objeto pro direito. Constituem a realidade objetiva, o referente. Os processos de significação são dependentes desse referente. E apenas desse referente. Fora desse referente, não há possibilidade de justificação.

    (sou bastante simpático à essa leitura, diga-se de passagem).
    (embora não concorde integralmente com alguns dos pressupostos epistemológicos, qua, ‘naturalização da jurisprudência’, que é o caminho que o Leiter segue. Acho igênuo. Para mim o lance é mais estrutural. Mas deixa).

    Então, creio que quando lidamos com “sets” de regras “abstratos”, para esses naturalistas, não fazemos nada muito diferente do que operacionar a linguagem – o problema da linguagem é o mesmo, se tu percebe onde eu quero chegar.

    Afinal, a questão é sobre a relação da expressão com o contexto, ou com algo mais concreto que isso – ou seja, o material MESMO, o referente enquanto NECESSÁRIO, e não contingente.

    Creio que se a gente leva a questão da verdade a sério, a resposta PRECISA ser que o referente é necessário – pelo menos em alguma medida estrutural. Responder que o referente é contingente nos leva para um caminho semântico, que vai nos aproximar de críticos literários, poetas e coisas afins. Não me parece um bom caminho para qualquer rigor epistêmico.

    E digo isso como alguém que NÃO subscreve à totalidade do que Kripke coloca. Acho que precisamos ir além de uma análise ordinária de expressões. Mas isso fica para outro post que tô esquentando aqui – depois que o Luis entrar de pedal e me avisar que to falando merda atrás de merda sobre Kripke.

  3. Pedro disse:

    Já que eu nao li o Kripke, vou calar o meu bico.

    Uma explicacao sobre o “livro”: há uma discussao grande sobre a imunidade dos livros eletrônicos, já que a constituicao fala em “livros, e o papel destinado a sua impressao.”

    Sobre o Leiter: mesmo nao concordando com ele, nao consigo entender o porquê da “ingenuidade”. Eu acho os argumentos dele bem costuradinhos…
    Enfim, mais uma discussao de horas.
    (Uma história boa dele aconteceu na Espanha. Estavamos todos lá sentadinhos, ouvindo e ele chega na palestra dele e diz: “tá todo mundo discutindo um objeto inexistente, e esse congresso nao tem razao de ser…” Deu pra ouvir o silêncio dos organizadores.)

    Enfim, vou ler o que precisa ser lido e volto daqui uns 3 anos…

  4. Luis Rosa disse:

    O contextualista: A verdade e o significado dependem do contexto
    O realista: De que contexto depende a verdade e o significado da tua asserção?
    Contextualista: Deve depender do contexto filosófico…
    Realista: O que se diz com aquela asserção não supõe valer para outros contextos tbm?
    Contextualista: tztzttztztzz (cérebro tendo um bug)
    Realista: Falô mano!

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