Me acordem quando a gente chegar nas coisas mesmas!

O último ano tem sido, desde uma perspectiva epistemológica, uma montanha russa meio estranha.

Desde que comecei a trabalhar no projeto de uma fenomenologia transcendental, naqueles moldes que o Husserl coloca nas Idees, tenho me encontrado na posição complicada de ter que justificar para todo mundo.

Por um lado, quando tu fala em fenomenologia tem o estranhamento da turma que faz epistemologia na via da chamada filosofia analítica. Por outro, tu tem os chamados “continentalistas” abanando pra ti e dizendo “ain, tu leu o livro novo do Nancy? ” e finalmente  uma van com todos os pragmatistas do mundo (uns seis) cai num abismo e nos livra de ter que falar deles.  Da minha parte, no entanto, falar de filosofia analítica, filosofia continental ou pragmatismo como escolas de pensamento causa um certo horror. Outra forma de falar a mesma coisa é dizer que o sujeito faz filosofia anglofônica (tradução: é um babaca sem alma);  germanica (tradução: não consegue dizer nada em menos de cinquenta folhas e treze conceitos); francofônica (tradução: esse cretino quer uma justificativa para escrever sobre putaria); e por aí vai. Algumas vezes, admito, também caio na tentação de usar esses termos – até porque não sou imune a raiva e depressão diante de afirmações pós-modernas do tipo “não existe fora do texto” (coisa que o autor a quem a frase é atribuída jamais disse).

Pois bem, mas tenho que me justificar porque esses grandes termos acabam sendo também uma fonte de identidade dentro do discurso acadêmico. “Eu faço filosofia continental” ; “Eu estudo filosofia analítica”; “Sou um pós-moderno”.  O interessante é que essas opções dificilmente aparecem dentro de um contexto onde o cara sabe o que significa uma opção metodológica. “Eu faço filosofia continental porque os analíticos não tem uma compreensão de mundo” – então eles são retardados mentais, é isso? “A filosofia continental virou uma história da filosofia”. Nunca vi essa coisa chamada filosofia continental. Ela também é possível em arquipélagos?

Quero dizer, porque a gente escolhe um método?  Descartes estava certo nisso: a grande questão das ciências, da pesquisa, é a questão do método. Uma opção por um método tem que ser uma opção consciente do que tu ganha e do que tu perde quando tu vai fazer aquela opção. Qual a vantagem que eu tenho ao abordar esse problema desde essa perspectiva? Mais ainda, essa perspectiva traz algo de novo? Algo materialmente diferente?

Por exemplo, quando eu falo em fenomenologia eu posso estar falando de Hegel, Marx, Husserl, Sartre ou Heidegger. Cada um desses camaradas me dá uma perspectiva diferente. Em alguns casos tu pode dizer que tem uma relação entre as dimensões de métodos entre esses caras, até uma complementação (Marx materializa a fenomenologia de Husserl; Sartre aponta o ponto cego na passividade Husserliana; Heidegger é um nazista); essas todas são teses que presumem que tu compreende algo naquele método, alguma vantagem ou desvantagem fundamental. Sem isso, tua opção metodológica (qualquer uma, usei a fenomenologia aqui só porque é o meu problema e esse é o meu blog, e tal) é uma aderência cega. Talvez porque tu gosta do professor que te ensinou aquela cadeira. Talvez porque tu não gosta do que ensinou a outra. Talvez porque esse seja o único livro de filosofia que tu leu até o final na tua vida.

Depois de um ano batalhando com as diferentes perspectivas nessa naba que a gente convencionou chamar de fenomenologia algumas coisas ficaram muito claras. A primeira é que eu não tenho estomago para Heidegger. Não tenho estomago para o dogmatismo ontológico, não tenho estomago para o discurso de sangue e terra, não tenho estômago para poiesis como saída para qualquer coisa. Até aí, tudo bem. É meio xarope falar para as pessoas que tu estuda Heidegger. Afinal de contas, é um cara que se deixou fotografar usando uma suástica e fez discurso elogiando o tamanho do talento do Fuhrer. Talvez ele tenha sido um filósofo importante no século XX, parece que foi.

Então tá, não é isso. Muita gente já teria me dito, então, que eu não faço fenomenologia. Já que Heidegger arruma a baderna que o Husserl fez. Essas mesmas pessoas tendem a esquecer que Heidegger, editor das palestras de Husserl sobre Consciencia e Tempo, fez todo o possível para as reflexões do seu “mestre” saírem após a publicação de Ser e Tempo. Que Heidegger escreveu enquanto editava a obra de Husserl – que é basicamente sobre o mesmo tema. Mas onde Heidegger achou o ESQUECIMENTO DO SER NA LINGUAGEM DESCRITIVA DE OBJETOS (eu juro que não estou inventando isso), Husserl simplesmente se preocupou em como modalizamos nossa forma de descrever objetos lá fora – em um certo sentido, Husserl antecipa vinte anos de discussão no positivismo lógico sobre como diabos a gente modaliza os termos com os quais a gente fala sobre o mundo.

Para mim, a coisa foi ficando mais clara na medida que pude perceber como o pessoal que trabalha com seriedade nas questões de método encara as diferentes perspectivas. Pois bem, a primeira coisa que me atraiu no modelo das Ideen foi o seguinte: podemos trabalhar com estruturas. Mais ainda: não conseguimos superar a idéia de estruturas fundamentais para os fenomenos lá fora. Ontem mesmo, falando com um professor, me dei conta que nosso ponto de divergência era justamente nesse ponto. O camarada queria apontar no modelo transcendental uma limitação, já que ainda estávamos na zona do modernismo. Com isso ele queria dizer o seguinte: olha, tu ainda tá assumindo que tu pode descrever objetos lá fora e relações com objetos lá fora de forma suficiente. Tu não pode. Tem um excesso de signifcação aí. O sentido é incontrolável. Desiste desse modernismo.

Isso aí, me parece, é uma consequência do desespero no qual o Heidegger se encontrou ao ver os limites da ontologia fundamental. Ao perceber que o método não conseguia dar conta da totalidade das coisas, Heidegger se moveu para o terreno da poiésis e disse: pois bem, tchau. O problema é que muita gente vai encontrar nesse movimento do Heidegger uma porta de entrada para fazer tabula-rasa da discussão epistemológica.  Então daí a gente parte para a impossibilidade de comunicação. E daí as coisas começam a soar meio bobas. “A possibilidade da comunicação é dada na impossibilidade de comunicar”; “a verdade é a expressão da violência” e por aí vai.  Bom, no momento que isso me pareceu insustentável desde uma perspectiva filosófica – talvez seja extremamente interessante em uma perspectiva literária. Mas não tenho qualquer interesse nisso.

Isso, daí, nos leva para a divisão de uma fenomenologia do tipo Hegeliana. Me desculpa, não me dou ao luxo de acreditar em uma tautologia no processo histórico. É muito amor pela causa, sinceramente. Sou louco mas não sou idiota.  (amo Hegel do fundo do meu coração, mas tem coisa que não dá).

Daí o caminho para a fenomenologia estrutural ficou um pouco mais claro na minha cabeça. Afinal de contas, tu quer fazer história da filosofia via fenomenologia e se meter no buraco que tantos outros se meteram, ou tu quer fazer algo com filosofia? Para mim, a atualidade do modelo estrutural do Husserl é notável. Ainda mais com alguns dos problemas que o povo da chamada análise de linguagem ordinária (OLP) tem encarado. Tipo: podemos nos referir ao mesmo objeto usando duas palavras diferentes? Bom, tu faz isso com linguagem ordinária O TEMPO TODO. E aí? É só semântica qua semântica formal? E tu pode resolver isso apelando para um “enclosement”? Algo tipo uma “naturalização forçada”?

É engraçado como a recepção de Husserl nos círculos positivistas tende a ver nesse ponto da naturalização, da fenomenologia como uma espécie de naturalismo, uma qualidade. Não cabe apontar aqui o quanto essa concepção tá equivocada. Mas é interessante, porque tu não tenta entender o lance nos próprios termos – tu vampiriza a discussão, e coloca ela nos teus. Mais ou menos como a incompreensão de boa parte da nova geração de autores na chamada “teoria crítica”. Ninguém realmente tenta entender os termos gerais, epistemológicos, do liberalismo. Não, o liberalismo é uma caricatura que vai servir para que eu consiga complementar minha tese. Ou, o turn hermeneutico é uma ferramenta que me serve – exceto quando ela não me serve mais.

Claro, não quero desqualificar a criatividade do pessoal. Tem coisa que me parece deliberadamente criativa com certos autores. E beleza. O caso do Husserl no positivismo me parece ir nessa direção. “Bom, vamos tirar esses reflexos aqui e aqui e usar isso aqui. E foda-se se isso aí não é o que o cara falou. Quem se importa?”. Beleza, contanto que nego seja honesto sobre isso.

Mas como eu tenho indicado nos ultimos posts, me parece que a disputa deixou de ser entre esses lugares comuns de analitico-continental-pragmatico. Mas entre quem tem uso para métodos e quem não tem. Mais ainda: quem acha que ainda faz sentido falar de verdade, de estruturas que são – em alguma medida – estáveis, e quem acha que não.

Da minha parte, tu pode até ter diversas formas de descrever a questão da verdade. Mas se teu ponto é que não podemos realmente apontar para um objeto e dizer “é isso ae” sem nos remeter à um sentido que é incontrolável… Bem, então é de bom tom perceber que esse caminho te coloca para fora de uma certa tradição. E eventualmente, tem que ter a coragem de dizer: não, não é verdade que pendurar um adulto consciente de cabeça para baixo, pelos testículos, é tortura. É apenas uma forma de narratividade.

Afinal, se o sentido é incontrolável, ele vai ser incontrolável até o final.

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