Enquanto isso, em St Louis…

Eu me orgulho de ter uma habilidade quase mágica para entender sotaques. Por exemplo, eu consigo entender as variações desdentadas E dentadas do hicklet local e via de regra me viro relativamente bem com os diferentes tipos de Jive. Tanto que consegui ver The Wire sem legenda e entender boa parte do que tava se passando.

Pois bem, eu tenho certo medo, no entando, das variações de sotaque pertinentes ao Rio Mississipi. Explico. Algo acontece com as cidades na beira do Mississipi que torna o sotaque um emaranhado de vocais faladas sem espaço.

Corta para o aeroporto de St Louis, hoje de tarde. Cheguei no aeroporto considerando a possibilidade de um apocalipse zumbi. Aeroporto completamente vazio. Starbucks fechando as seis e meia da tarde, e a cafeteria que normalmente vou para pegar um bagel e um croissant (oi, eu sou um lugar comum ambulante, e tu que é feio?) tá vazia. Um camarada arrumando a geladeira me diz pra waittaminat (peraê) e prossegue para me atender.

‘ay’

‘hey, long day?”

“d’nt get’me strt’d”

“so, can I have a couple of croissants and an everything bagel?”

“wha?”

“a couple of croissants and an everything bagel, please”

“alrite”

“cool”

“ay, mag’t ly a ‘sant”

“sorri, ai didntchi rir iu” (fico nervoso e meu sotaque fica absurdo)

“ay g’t a ‘sant!”

“meiti, ai min nou disrispequit, but ai quentch understendji iu”

“ay. ya as’ed for two ‘sants, aight? ay only got one” (de forma ABSURDAMENTE lenta e APONTANDO para a bandeja)

“ah, gotcha. thaz faini. one croissant and one bagel” (aliviado)

“toast’d?”

“sure”

“ay, ya’na ‘esse in na ‘sant onna bagel?”

“yes”

“wha?”

“yes?”

“wha?”

“uati?”

“ya’nna cream cheese inna’bagel an’ da’ ‘sant?”

“ah. cream cheese in da bagel, please”

“ay”

“can I have a refill for the coffe mug?”

“ay, but’ay charge a soda then”

“sure”

“that be 5.01”

“sure. there  ya have it. sorry ‘bout the confusion”

“ya fine, bro. ‘ve nice day”

“ltz”

E assim ganhei meu primeiro troféu joinha em quator anos. Última vez que isso tinha acontecido comigo tinha sido na chegada nos Estados Unidos, em Atlanta, quando eu não tive sequer a vitória de conseguir dialogar. A coisa chegou no ponto que eu APONTEI, o cara apontou de volta, eu fiz sinal de positivo e a gente se entendeu.

Fica algo de positivo, portanto.

Comments
2 Responses to “Enquanto isso, em St Louis…”
  1. Marcelo disse:

    Aconteceu comigo, na Alemanha. Com um McTurco.
    Alemão sofrível dos dois lados. E ele não falava inglês.
    No fim ele me deu um sanduiche aleatório, que tava mais perto na estufa. Achei bem bom. =D

  2. Bruno disse:

    eu juro q tinha te atolado em todos os “hã?!”

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