Bin-Laden está morto.

Pensei em alguns títulos alternativos,

“Bin-Laden está morto. Nada mudou”

“Bin-Laden está morto. Parabéns pela re-eleição, presidente Obama”

“Bin-Laden está morto. E ainda faltam oito estrelinhas nos últimos seis estágios de New Super Mario Bros Wii para que eu zere o jogo”

“Bin-Laden está morto. E eu tenho um projeto para terminar”

“Bin-Laden está morto. A guerra nem começou”

A minha primeira imagem nesse país, vocês sabem, foi na chegada em Atlanta. O Jackson Airport (ATL, para os íntimos), é o maior aeroporto do mundo. Também serve de portal de chegada e saída das tropas norte-americanas. Quando eu estava na fila para entrar nos Estados Unidos, qual seja, aquela fila que te separa do guarda de fronteira que vai checar teus documentos e te garantir (ou negar) entrada no país, aquele aparelinho mágico que fala com a gente durante nossa estadia no Aeroporto comunicou aos presentes que dois pelotões, um do Afeganistão e outro do Iraque, chegavam naquele momento no local.

O aeroporto parou. Melhor, ficou estático. Quando os soldados começaram a passar, na direção da checagem de bagagem, todos os presentes se viraram para as tropas e começaram a aplaudir. Ninguém mais trabalhou até todos passarem. Foi uma coisa interessante, quase Romanesca. Também serviu para antes mesmo de entrar no país ter a realidade, especialmente diante dos que chegavam em cadeira de rodas, enfaixados, com muletas, de que esse era um país em guerra.

Mas essas nunca foram guerras no sentido que o termo adquire pós-Westphalia. Nenhuma guerra depois da segunda guerra mundial foi – e eu não vou explicar aqui porque elas não foram, até porque não sou historiador e não é papel de blog ficar dando lição de história. E também porque esse é o tema de pesquisa da Tatiana e não sou louco de me colocar na posição de falar asneira.

A morte de Bin-Laden, nesse sentido, apresenta aos Estados Unidos uma oportunidade única: tirar a patota do Afeganistão e dizer “o objetivo principal, o nosso alvo primário, foi atingido. A gente não tem mais nada o que fazer aqui”. Acontece, que o atoleiro no qual os Estados Unidos se meteram não tem essa. O Afeganistão, assim como o Iraque, está uma baderna. Para todos os efeitos, depois de dez anos o “presidente” Afegão controla um bairro de Kabul, enquanto conflitos tribais explodem ao redor do país. Ao mesmo tempo, tá lá o Paquistão, onde Osama foi morto – bem longe da fronteira, em uma cidade próxima da capital. Osama estava mais perto da Índia do que do Afeganistão – e, tudo indica, estava por lá desde 2008. Há quem diga, desde 2005. Hiding in plain sight, dizem os gringos. Escondido atrás da porta, digo eu.

E daí, Osama morreu. Ou melhor, foi declarado morto. Vai ter quem diga que ele morreu faz tempo. Vai ter quem diga que não está morto. Questiono a utilidade, para os Estados Unidos, de esperar para declarar a morte desse fascínora. Em 2001 o pessoal se encontrou e disse “turmina, vamos declarar a morte do Osama, eventualmente. Mas vamos esperar até 2011, perto do aniversário da morte do Hitler? Daí, quem tiver no poder executivo, ganha! Que tal?”. Inversamente, se não morreu…. como lidar com o risco de aparecer uma mensagem na Al-qualquermerda com o Osama sorrindo e segurando o jornal de ontem? E vestindo uma camisa do Flamengo? Pior: com um cartaz dizendo “EU JÁ SABIA” e uma caricatura do Olavo de Carvalho chorando abraçado no Kassab ao fundo? Pior: o Osama, dentro do estúdio onde a NASA falsificou o pouso na lua, ABRAÇADO NO ELVIS e de mãos dadas com um dos Aliens de Roswell?

Coisas mais estranhas já aconteceram.

Mas vamos ser conservadores e aceitar que existem fatos (eu sei, eu sei, BAITA premissa) e dizer que uma vez tendo evidência precisamos de contra-evidência. Osama morreu. E faz relativamente pouco tempo (tenho boa vontade o suficiente para assumir que a CIA pode ter inventado aquele live-twit da operação, e precisavam de alguns dias para verificar o DNA do infeliz – mas vejam bem, realmente não ACREDITO nisso, só tô dando um ossinho para não me acusarem de ser totalmente vendido ao mainstream; mas sou vendido demais, vendido gostoso). O que muda com a morte do Osama, mesmo?

Bem, prá início de conversa, o negão tá re-eleito. Acabou o papo do Obama ter só um termo na presidência. Quem quer que seja o candidato republicano, tá indo para o sacrifício e vai enfrentar o cara que comandou a operação que leu os direitos de Miranda para o cadáver do Osama. It’s the economy, stupid. Claro, é a economia. Mas vamos lá, o cara botou a cabeça do inimigo na lança e dançou em praça pública. Tem coisas que não mudam. Especialmente depois de dez anos de derrotas humilhantes. Não tem inflação, preço de combustível ou desemprego que resista ao contra-ponto “mas a gente matou aquele filho da puta”.

Mas são números deprimentes. Mais americanos morreram no Iraque e no Afeganistão do que nos ataques da Al Qaeda. A rede de proteção sistemática criadas em aeroportos, os sacrifícios de prerrogativas civis para a proteção da população, o financiamento de duas guerras (uma delas totalmente inútil, a outra só um pouco) com dinheiro Chinês e a re-eleição de Bush são só as coisas mais aparentes – os efeitos mais óbvios, da guerra nos estados unidos. Não houveram ataques sistemáticos, após o 9-11, como muitos pensavam, dentro do país. Mas o país mudou profundamente. Mais importante, a percepção externa do que os Estados Unidos significam para o mundo mudou.

A captura e morte de Bin-Laden, operada por agentes americanos, muda isso? Talvez. Certamente funciona como um catalizador dos ânimos internos – e aqui é importante perceber que essa força catalizadora foi o que levou gente para a rua ontem. O país que havia se unido, e depois foi dilacerado pelos efeitos do 9-11, agora via a oportunidade de ir para a rua e gritar contra o filho da puta que teria organizado a patota. “Ah, mas o grupo do filho da puta tinha sido armado até os dentes pelo Reagan! Esses americanos hipócritas!”. Velho, cala a boca e escuta: Reagan não inventou a doutrina que meteu essa gente dentro de aviões civis e enfiou esses mesmos aviões civis dentro de prédios cheios de civis. Sim, o velho Reagan deu um tiro no pé (milhares). Mas ele não causou os ataques. Causalidade direta é um exercício complicado. Quando a gente tem muitas variáveis, convém historicizar os elementos antes de sair por aí cagando regra.

Ainda assim, a “nação indivisível” pela qual o Obama falou ontem segue dividida. A completa infantilização do debate político por aqui indica isso de forma notável. A captura de Osama muda isso? Talvez por algumas semanas. Talvez até a próxima crise econômica. Talvez até um novo atentado. Mas tenho a convicção que esse discurso agora vai voltar para a margem – assim como a oposição se tornou tímida após os ataques de 9-11. Uma vitória militar de peso tem o mesmo efeito de uma tragédia,  também nesse sentido. E esse é mais um motivo pelo qual eu sigo pensando que Obama não tem adversários para a próxima eleição. Está eleito. Fim.

Mas as dívidas não vão embora com a morte de Osama. O Afeganistão segue um barril de póvora que se espalha até o Paquistão. Iraque segue em uma situação lamentável. Talvez as manifestações ao norte da áfrica sejam boas notícias – mas ninguém vai saber isso antes de uns bons 4 ou 5 anos (tempo suficiente para a coisa ir para o saco de vez).

Enquanto isso, Obama se prova um presidente de guerra. É curioso. Ele não se elegeu como um presidente de guerra, ele não fez campanha como um presidente de guerra. Mas é um presidente de guerra mais sutil – e mais efetivo – do que Bush II. A frieza do Obama ainda vai ser objeto de muitos trabalhos sobre policy – e muita gente, com razão, aponta nisso o principal abismo entre o presidente e a população. A falta de indignação, de vibração, nas manifestações de Obama é via-de-regra confundida com uma leniência.

Depois de um início de ano desastroso para a política externa norte-americana, Obama – junto com a Clinton- parece estar despontando em uma nova direção. Uma re-leitura da doutrina Bush enquanto um Imperialismo Democrático do tipo sutil – e a operação de contra-inteligência no Paquistão, assim como as claras interferências, também no nível de contra-inteligência, na Lybia e no Egito, apontam para esse caminho.

Eu tinha planos de escrever algo, também, sobre como matar alguém pode ser um imperativo moral. Mas um dos meus subtítulos era “eu tenho um projeto para escrever” justamente porque eu sabia que não ia conseguir falar disso agora. Talvez depois. Mas é evidente, matar Osama era um imperativo moral, além, é claro, de uma obviedade política (e não é muito normal essas duas coisas andarem juntas).

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Comments
3 Responses to “Bin-Laden está morto.”
  1. Marcelo disse:

    Achei bem interessante as hordas enfurecidas de americanos dançando pq mataram o cacique inimigo. Bem civilizado.

  2. Ferrari disse:

    Concordo com o Mallmann. Aliás, acho ótimo o pessoal dos campi universitários (que sempre protestam contra a pena de morte e o caralho a quatro) fazendo festinha à lá “USA, uhu!”. Não vi muita notícia sobre isso, mas alguém pode me indicar a legalidade da operação?

  3. Marcelo disse:

    Eu assinei um contrato de legalidade pro negão obama esses dias. Assino um igual pra ti =D

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