Competições, comparações, intimidações e o incrível mundo da pós-graduação

Esses dias tava saindo da biblioteca e encontrei um colega sentado no pátio, fumando um puro e olhando com cara de apavorado para a Lógica do Hegel. Ele não tava, exatamente, lendo a Lógica. Ele tava olhando pro livro, com uma cara de desespero profundo. Algo tipo “o que eu fiz para merecer isso”. A lógica, vocês sabem, foi o livro que o Hegel escreveu para ensinar predicação e gramática para alunos do Colegial. Basicamente, um curso básico de regência, coerência e argumentação para adolescentes. Hoje, ninguém espera, realisticamente, que alguém com menos de seis anos de filosofia seja capaz de ler o livro e entender a patota.

Parei para bater um papo com o cara – coisa que nunca faço, detesto parar para conversar com colega – e pergunto se ele vai voltar para casa no verão – o colega em questão é Turco. Papo vai, papo vem, ele me conta que está completamente apavorado, já que foi obrigado a fazer o Comprehensive Examination, da SIU, muito embora ele fosse um aluno de doutorado. Os COMPS são os exames para os mestrandos aqui do departamento, que compreendem uma lista obscena de livros que passam desde filosofia clássica até temas em filosofia indiana, chinesa e nativo-americana.  Pelo que lembro, algo em torno de 150 livros. Entre eles, a Lógica do velho Hegel.

O ponto, tanto dos comps quanto dos prelims é ter um ponto de avaliação homogêneo para todos os alunos. Todo mundo passa pelo mesmo rito de iniciação. Tipo ali quando o pessoal dá a bunda no segundo semestre do direito. Hein? Não rolou com vocês? Ah tá, então comigo também não. Enfim, é um critério homogêneo de avaliação para certificar que o pessoal sabe a história da filosofia e blah.

Ano passado do grupo de doze alunos que fizeram os COMPS, dois passaram. A conclusão brilhante do departamento é que existe algo de errado com os alunos. É interessante que boa parte desses alunos tiveram boas notas nos seminários onde eles se matricularam e alguns tinham até bolsas de estudo (coisa rara para aluno de mestrado, nesses tempos de crise). Uma tremenda discussão toma conta das listas de email do departamento, todo mundo trocando acusações e gente dizendo que era inadmissível esse alto índice de reprovação.

Meu primeiro reflexo era responder com citações aleatórias do canon do Marquês de Sade, ou dos diários do cárcere do Gramsci. Como detesto ter que trocar mais que três frases com qualquer um dos meus colegas, evitei essa abordagem e resolvi ignorar sumariamente a discussão. Mas enquanto eu falava com o colega turco – de novo, importante ressaltar que isso não é uma atitude comum, mas tava um dia bonito, o cara tava fumando um puro e segurando a Lógica do Hegel… era demais prá minha cabeça não dar um oi pro cara dado esse contexto… enfim, falando com o cara ele comenta que não entendia isso, achava que era um reflexo do espírito (tem acento? por via das dúvidas vai com, não vou revisar, ninguém me paga para escrever aqui, só reviso texto pago) competitivo da academia norte americana, e a necessidade de comparar tamanho de talento (se é que vocês me entendem).

Não sei. Eu gosto de competição. Tenho a vaidade necessária para me manter vivo no meio desse ninho de cobra que é academia norte-americana. Mas… esses testes… competição?! Estudei para os PRELIMS (versão dos COMPS pro doutorado, com mais livros mas menos temas e que pede CRIATIVIDADE na resposta, não DISSERTATIVIDADE – oi MEC, inventei palavra, me dá o prêmio Paulo Freire de educação, faz favor) por exatos dez dias, nos quais li Aristóteles. E também li um pouco de Kant, que ninguém é de ferro e eu precisava revisar a diferença entre os tipos de juízos no Prussiano.

Passei. Fim. Nem perguntei como foram os colegas, até onde me consta todo mundo passou. Alguns passaram com High pass, outros com pass, outros passaram com as calças na mão. Eu, particularmente, li as correções, fiquei puto das calças com os elogios e mais puto das calças ainda com as críticas e saí feliz e contente que nunca mais na vida ia precisar passar por uma palhaçada daquelas (entre outras preciosidades, o teste perguntava qual a diferença da fenomenologia Husserliana e da fenomenologia em Pierce e qual foi o debate entre Quine e DEWEY. Resposta pra primeira: a primeira importa. Resposta pra segunda: quem é Dewey?).

O camarada Turco havia rodado nos comps, segundo ele, por não saber filosofia indiana – parece que houveram CINCO perguntas sobre o assunto, e era impossível não responder ao menos uma no teste. Mais ainda, por ter escolhido seguir se relacionando com os colegas de departamento – essas pessoas agradáveis que compõem a nossa comunidade de scholars -, o camarada havia passado o último ano ouvindo lixo dos colegas sobre como os comps eram determinantes para o futuro dele, como isso era uma oportunidade de aprender e mostrar serviço.

Eu olhei para ele e tive que perguntar “e tu acreditou nessa ladainha, véio?”; o cara teve que rir, e ficamos conversando sobre isso. Quero dizer, sobre como a gente é consistentemente tratado como retardado mental. Vejam bem, meu problema não é com o teste – per se -, meu problema é com a justificativa. Consigo suportar tranquilamente alguém me dizendo “tu tem que fazer isso porque essa é a regra, cala a boca, não discute”. Sem galho. Beleza. Entendo hierarquia. Agora, “tu tem que fazer isso porque isso é fundamental e blah”. Não. Não. E, sabe o que mais? Não.

Pessoal adora comparar resultado de teste e avaliação no departamento. Inclusive, uma das diversões das rodas de bebedeira é ficar comparando as notas que os professores te mandam. Sim, essas coisas, em um mundo perfeito, seriam confidenciais. Mas todo mundo sabe o que ciclano fala de beltrano, que por sua vez fala da mãe do badanha. Coisas de departamento pequeno em cidade pequena, mas também coisas que devem fazer tu pensar bem antes de levar qualquer coisa que um filósofo escreveu como regra de vida: lembra, esse é o tipo de pessoa que passa a noite comparando notinha de professor no bar. Lembra bem disso antes de achar que um cara desses pode contribuir pra tua vida.

Para mim a competição é uma força motivadora para produzir e fazer coisas que prestam. Mas competição, não comparação. São coisas um pouco diferentes. Nunca tive paciencia para ficar no vestiário segurando uma régua e olhando pros coleguinhas com cara de “e aí, vamo?”. Mas, por outro lado, tem algo de massa em tu ouvir um camarada falando e pensar “eu não tô conseguindo seguir esse filho da puta”, e não porque o filho da puta não faz sentido. Mas porque o filho da puta em questão sabe muito mais do que tu sabe. Lembro de ouvir o Fabio Caprio, ou o Thiago Leite, falando de Sartre (o primeiro) ou de Aristoteles (o segundo) e pensar “esses putos tem a minha idade, como assim?”. Cada vez que eu leio algo que o Walter escreve eu tenho vontade de ir até o Brasil e matar o viado por conseguir ser claro daquele jeito . Uns dois meses atrás um camarada do Boston College esteve aqui apresentando um paper sobre o “terceiro Heidegger” – um tema que via de regra eu detesto. Eu quase tive uma síncope com o nível da discussão que o cara trouxe. Mesma coisa um paper sobre análise de linguagem e fenomenologia que um amigo escreveu na França. E mesma coisa as minhas discussões diárias sobre epistemologia e teoria política com a Tatiana.

Tem um lance que é simplesmente tu tentar alcançar o nível dos caras que tu sabe que estão na tua frente (e eu não tenho qualquer ilusão sobre chegar no nível de qualquer um dos cretinos aí em cima), mas é justamente isso que esse ambiente de comparação acaba tangenciando. Como assim?

Cansei de ouvir professor e aluno, por essas bandas, falando que o negócio é network. Esses trabalhos em rede são código para tomar uma ceva e fazer amigos, digamos assim. Duas coisas nas quais eu sou péssimo. Nesses network, o mundo é de quem canta mais alto. Daí chega lá o cara e começa a gargantar sobre todas as bobagens aleatórias que ele pensa sobre x, y,z. Como se alguém, algum dia, se importasse que ele pensa. Nossa, tu tem opiniões! São opiniões abalizadas. Tu leu esse monte de livro. Nossa, e eu passei a minha vida inteira ignorante de pessoas com opiniões abalizadas e que leram um monte de livro. Beleza. E aí?

E aí que esse tipo de palco é o ideal para o cidadão chegar e te dizer que 1) ele tem um higher ground, já que leu um monte de livro e sabe coisas SOBRE A VIDA por isso; 2) o que ele sabe é melhor do que o que tu sabe, e é melhor por esses motivos que ele vai te contar agora no bar.

Por essas e por outras, existem histórias de colegas que levaram a discussão acadêmica (haha) para a única conclusão possível nesse cenário: troca de porrada no meio do bar, durante a maior conferência em filosofia americana (hehe) no moooondo. Daí o mundo da pós graduação vira uma competição, mas quase que nos moldes de um duelo. E a discussão nos papers começa a reproduzir a bobagem das discussões no nível interpessoal – é uma discussão infantilizada, estúpida e basta uma boa olhada no blog do filósofo mais ativo nas polêmicas nuzistates, para ver isso a todo vapor (não vou linkar, não colocarei o nome do figura, certamente alguém vai fazer isso por mim nos comentários – aham, right).

O mais triste dessa história toda é que a intimidação no nível argumentativo, da discussão de conceitos, de problemas pertinentes ao que a gente estuda, ou ao menos deveria estar estudando, acaba sendo acusada de elitismo ou de fechada. O cara acostumado a conversar no bar, chega pra ti e diz que “ain, mas isso aí, isso aí é _____”. Nada contra pedir pro camarada ser claro, de saber a audiência para qual estar falando (pessoalmente, acho que nego que fala de ontologia fundamental para audiências leigas merece todo o escárnio que vai ouvir depois) e ser suficientemente claro para que possa ser compreendido sem que todos no recinto tenham tomado ácido. Mas no contexto das conferências, digamos assim, do meio – onde tu supostamente tá apresentando uma pesquisa de ponta para pessoas que também fazem pesquisa de ponta -, não dá para ficar nessa reza braba de que “isso é elitismo” porque tu tá te sentindo intimidado pelo argumento. É justamente ai que a competição deveria começar.

Mas, parece, o meio acadêmico é um meio onde o ponto médio parece sempre ser indicado pelo mínimo denominador comum, pelo ponto mais baixo. Quem pula mais baixo acaba definindo os parâmetros dos outros. E se alguém pula muito alto, então tem que ver isso aí. Daqui a pouco vão achar que o que a gente faz tem que ter qualidade, e aí tu já viu.

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