Os modelos “metas” e o suposto fracasso da ‘teoria da ação racional’

O New York Times tem um blog, ou algo parecido com o que a gente costumava chamar de blog, sobre filosofia. Toda semana um figurão da academia norte-americana aparece por lá para escrever alguma polêmica, na tentativa desesperada de centralizar um debate ou talvez até educar o grande público (essa ficção) sobre temas vinculados com filosofia.

A última postagem por lá do John McCumber, é sobre a suposta falência dos modelos “metas” para análise de comportamento e atitudes “morais”. O McCumber tenta dar um panorama sobre, primeiro, o que é a teoria da ação racional, depois, como a teoria da ação racional seria dependente de um certo modelo de “agir desinteressado” e de uma forma de “descrição desinteressada” de comportamentos e atitudes. Bem, diante dessas pressuposições sobre o que supostamente consiste na teoria da ação racional, McCumber segue o baile para concluir que

1) Não existe agir moral desinteressado

2) Não existe formas de descrição de fenômenos que podem ser chamadas de neutras

Portanto,

(por transitividade,) A teoria da ação racional é impossível

e

(por conectividade,) Hegel tinha razão.

O problema todo é…. isso aí que o McCumber está descrevendo como a teoria da ação racional, ou o “paradigma” do “ator racional” é uma simplificação grotesca do que está em jogo na teoria dos jogos (pun-intended) e nas derivações da teoria dos jogos (aí inclusos os modelos de ação racional).  Existe um princípio metodológico (se é que podemos chamar assim) que Davidson coloca na baila e que chama de “caridade epistêmica”. Em síntese, o princípio vai dizer “quer criticar, vai criticar direito”.  Descrever teoria da ação racional nos termos colocados ali em cima presume, no fim das contas, que as pessoas que desenvolveram esses modelos são retardadas mentais – ou, no mínimo, completas inoperantes.

Qualquer um, até uma pessoa sem interesse algum em filosofia – ou, para usar os termos que os epistemologists (oi Luis!) adoram usar, alguem “que não faz perguntas da forma que um epistemólogo faz perguntas”  (posso estar misquoting, mas é por aí) -, pode olhar para as duas definições ali em cima e dizer “mas é claro que isso não existe!”. Qualquer um com o mínimo de discernimento sobre como linguagem funciona sabe que é bobagem dizer que posições “neutras” são o caso. Linguagem = ponto de vista. Okay, não precisa ler Aristóteles para saber isso.

Então, vamos lá, respirem fundo e repitam comigo: não é por aí.

Por onde é, então?

Bem, primeiro tem que entender o contexto no qual as teorias da ação racional surgem. Os modelos de jogos existem desde que existe xadrez e não adianta ficar tentando achar a galinha que botou esse ovo, mas o que a gente chama de teoria da ação racional pode ser traçado pro modelo estabelecido pelo Arrow em 1951. Esse modelo do Arrow, ao contrário do que o McC tenta nos convencer, não alega que as pessoas precisam adotar um ponto neutro. Pelo contrário, Arrow concede desde o início que indivíduos tem preferencias e que se individuos são capazes de expressar preferências, então é verdade que eles de fato preferem uma coisa, e não outra.

Mais ou menos assim:

Para um indivíduo hipotético chamado de Walter V. que gosta muito de Zizek, gosta de Agamben e gosta um pouco do Foucault, é razoável admitir que Walter V. prefere Zizek a Foucault (sempre).

Mas qual o motivo pelo qual Walter V. gosta mais de Zizek? Qual é o motivo pelo qual Walter V. acorda toda a noite as quatro da manhã abraçado no travesseiro gritando “Zizek me chama de teu croata” (ns). Não sei. Não importa. Ninguém sabe. Para o Arrow importa apenas que Walter V. expressa uma preferência sincera a dizer que gosta mais de Zizek. E um pouco menos do Agamben. E um tanto menos do Foucault. Ninguém tem acesso a como o Walter V. pensa. Importa que ele pensa essas coisas.

O salto de fé do Arrow, e no qual toda a teoria da ação racional ainda segue, é o seguinte. Se perguntarem para o Walter V. “então, tu prefere o Zizek ao Foucault, certo?” e ele responder “errado”, tem alguma coisa irracional na expressão de preferencias anterior. Alguma coisa deu errado. Deu pane no sistema. Se eu te pergunto, quais teus três sorvetes preferidos, e tu me diz 1) Chocolate, 2) Limão, 3) Morango, e eu te pergunto, então tu prefere chocolate ao morango, certo? E tu me responde: nah, morango. Meu amigo, você não tá sendo racional na forma de expressar as preferências.

Não tem nada de “neutralidade” nisso. A única coisa que o Arrow presume (escândalo no recinto) é que duas pessoas expressando preferências podem se entender! Elas podem não entender os motivos pelos quais elas expressam tais preferências (e os motivos de Walter V. a preferir Zizek são, certamente, incompreensíveis).

Certamente, existe um problema na descrição estática do processo de decisão nesse modelo. Quer dizer, para o Arrow a decisão acontece no momento que a decisão acontece. Não é que a historicização do processo de como chegar na decisão não importe – e eu sugiro entusiasticamente ler o livro até o final antes de concluir que Arrow discorda com alguma coisa que Kant ou Hegel tenham escrito nesse sentido -, mas é que a historicização não nos ajuda a compreender como indivíduos perfeitamente racionais agindo de forma perfeitamente racional podem levar a resultados perfeitamente irracionais. Para Arrow a resposta é simples: indivíduos não estão agindo racionalmente, ou seja, eles pensam agir racionalmente mas na realidade expressam uma ordem não-razoável.

Muitos anos mais tarde um sujeito chamado John Rawls vai pegar algumas dessas idéias emprestadas para fazer o que o McC identifica como uma desmistificação do modelo de Ação Racional: “rationality in choice includes moral constraints” – racionalidade na escolha inclui “rédeas” morais [no processo de escolha]. Enquanto McC se esguela para argumentar nessa constatação de ordem Rawlseneana (oi, inventei palavra, me dá PhD!) um ponto cego na teoria da ação racional, Arrow abana para ele, com o livrinho dele sobre Ação Racional, escrito em 1952, que diz exatamente isso. O ponto final do Arrow é que indivíduos vão permanecer batendo cabeça enquanto tiverem alguma ilusão que o processo de decisão, de expressão de preferência, só diz respeito ao indivíduo.  Ele inclusive demonstra isso matemáticamente. É bem massa, sugiro entender isso aqui, antes de falar merda.

Enfim, os modelos meta tem um problema – se é que dá para chamar assim – que é tentar descrever de fora um determinado comportamento. Mas aí que tá. Qualquer um trabalhando com linguagem tem esse problema sempre. Não adianta, podemos ficar o resto da vida tentando entender Perì Psūchês, II 12;  III 4 – 8, mas continuamos naquela ladainha: entre a descrição de uma coisa e a coisa sempre tem um abismo. Beleza. Mas aí os modelos de Teoria Racional confessam um limite: são modelos de análise pós-factual. Depois tu pode observar algo parecido começando a acontecer e dizer: uepa, vai dar merda. Ou, “olha, quem sabe essa abordagem aqui funciona melhor para esse modelo ali”. Não tem “neutralidade” alguma prevista nisso – tem, isso sim, uma certa humildade de aprender com erros (e acertos) passados e como reproduzir essas situações.

Tenho minha própria tese sobre as desvantagens do modelo de Ação Racional, parte do meu problema é com o próprio conceito de “ação” que a teoria toma como guia – e também com vários outros pontos de menor interesse que não cabem nesse blog (provavelmente não cabem em lugar algum, são delírios de gente que gosta de discutir vírgula). No entanto, fico inseguro com em que medida as críticas ao modelo atingem o ponto. Afinal, se o próprio método admite que é uma forma de análise de fatos passados, como que tu critica ele por não poder prever o futuro de forma decisiva? Em alguma medida, ele te ajuda a identificar padrões. Mas excetuados alguns teoristas mais radicais – mais nominalistas, se queres ser pomposo -, ninguém realmente acredita que existe uma necessidade na repetição de um padrão. Dadas as mesmas circunstâncias, provavelmente vai dar merda de novo (por isso que toda vez que congelam as estruturas da base de lançamento de um foguete tripulado, cancelam o lançamento. DEU MERDA AQUELA VEZ) – vai dar merda com certeza? Olha, quer certeza vai tratar com deus, aqui a gente lida com probabilidade.

Comments
3 Responses to “Os modelos “metas” e o suposto fracasso da ‘teoria da ação racional’”
  1. Marcelo disse:

    É sério que tem gente que ganha a vida discutindo isso?
    Sério, eu escolhi o curso errado. Essa história de preferência, de novo.

  2. Luis Rosa disse:

    interessante ponto, fabs. acho q a racionalidade enquanto modelo de decisão é um interessante tópico. tm algmas coisas q eu gostaria de observar. para alguns filósofos (como foley e james, por exemplo) para quem a racionalidade é uma função de fins almejados pelo sujeito racional. agir racionalmente é otimizar o processo de atingir um fim. nesse sentido, há racionalidade prática (com fins práticos como ter grana ou saúde), racionalidade moral (fins morais como a virtude ou a vida santa) e racionalidade epistêmico (onde a finalidade é maximizar verdades e diminuir falsidades no sistema de crenças). De acordo com esta análise da racionalidade, só há racionalidade se há finalidade (a racionalidade é um meio), e um ato só é racional se ele otimiza um telos.
    Bem, se aceitarmos esta definição, os agentes sociais serão irracionais se eles estiverem agindo contrariamente ao recomendado para otimizar os seus fins – MAS, há tantos modos de ser racional como há tantos tipos de fins diferentes. Para um cara que quer satisfazer o seu desejo de ver o programador de Final Fantasy 13 morto, é racional descobrir onde ele mora, arrumar uma forma de entrar na casa do cara e usar um silenciador para dar cabo a sua existência (kkkkkk). Os atos de entrar na casa e matar são racionais para o fim almejado, mas aquele fim pode ser dito irracional se supusermos que o assassino do programador de Final Fantasy 13 NÃO QUER ser preso ou punido, por exemplo. ser racional é complicado: trata-se de um cálculo com inúmeras variáveis (fins e meios) que precisa evitar a racionalidade de um meio acarretando a irracionalidade dos resultados – nobody said it was easy!
    tem ainda outras concepções de racionalidade que não são deontológicas, e não fazem referência à consciencia do agente racional – ele não precisa estar consciente do que quer fazer para ser racional, e seer racional aqui significa agir de acordo com regras (morais, práticas, epistêmicas, lógicas, etc). como nos lembra o louco de viena, para agir de acordo com uma regra não é preciso saber qual regra se está seguindo. e esta concepção de racionalidade tem um nome: externalismo.

  3. Luis Rosa disse:

    nossa! meu comment acima está crivado de erros! é o que dá escrever antes do almoço! =]

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