Uma citação e um problema

O relativismo moral, no entanto, tende a ser auto-contraditório. Relativistas podem dizer que verdades morais existem apenas em relação a uma moldura cultural especifica, mas essa afirmação sobre o status da verade moral é, ela mesma, supostamente verdadeira em todas as molduras possíveis. Na prática, o relativismo quase sempre nos leva a concluir que devemos ser tolerantes sobre diferenças morais, já que verdade morais não podem ser sobrepostas. E no entanto, esse compromisso com a tolerância não é colocado equanto uma simples preferencia relativa a outras consideradas igualmente validas. Ao contrário, tolerância é tomada como mais consistente com a verdade (universal) sobre a moralidade do que a intolerancia. A contradição aqui não é surpreendente. Dado o quanto nós somos dispostos a fazer afirmações morais universais, podemos duvidar – razoavelmente – de que qualquer consistência em um argumento partindo de um relativista moral.

O relativismo moral é claramente uma tentativa de pagar uma reparação intelectual pelos crimes do colonialismo, etnocentrismo e racismo Ocidental. Creio que essa é aúnica coisa caridosa a ser dita a respeito do relativismo. Espero que esteja claro que não estou defendendo as indiosicracias do Oeste como mais esclarescidas, em princípio, do que aquelas de qualquer outra cultura. Estou, ao contrário, defendendo que os fatos mais basicos sobre o desenvolvimento humano necessariamente transcendam questões culturais, da mesma forma que quaisquer outros fatos. E se existem fatos que são de fato uma questão de construção cultural  se, por exemplo, aprender uma lingua específica, ou tatuar a sua face undamentalmente alteram as possibilidade das experiencias humanas, bem, esses fatos também surgem de processos (neurofisiológicos) que transcedem a cultura.

Sam Harris, The Moral Landscape – p. 45 (minha tradução).

Oi, Sam. Eu tava concordando contigo em quase tudo, até agora. Mas assim, rapidinho, antes de eu seguir em frente…

Defender que ALGUMA COISA em termos de ASSERÇÃO ou de COMPREENSÃO pode TRANSCENDER cultura é ignorar que a gente constitui verdade de forma dependente da linguagem e do espaço onde a gente constitui a verdade. Beleza, existem fatos. Pode até ser que existem fatos morais. Mas a gente sempre fala desses fatos presos com os dois pés na cultura, ok. Admitir isso não vai matar teu argumento, só vai ter que te fazer largar esse naturalismo meio tosco.

Mas beleza, deixa eu voltar a te ler agora que tô curtindo o esquema.

Comments
3 Responses to “Uma citação e um problema”
  1. Panorama of Endtimes disse:

    pois é, essa é uma coisa que sempre me chamou a atenção. como eu posso dizer que uma coisa aconteceu, que uma coisa está ali, com dois pontos de vista culturais radicalmente diferentes?

    acho que é a mesma coisa, mas como existe fato sem língua?

  2. Amy, Amy, Amy... disse:

    Olha, quanto ao primeiro parágrafo, parece ser o problema de validação de qualquer teoria: se você, teórico, que gasta seu tempo sobre a Terra desenvolvendo algum raciocínio, não puxar a brasa para o seu assado, bem… Se você quiser ver seu conhecimento valorado e ganhando terreno entre seus pares, precisará vendê-lo como um núcleo duro; acredito que, em Humanas, não há quem venda com sucesso uma ideia em construção. Quem acaba fazendo o papel de questionar e encontrar brechas é outro teórico, que assim terá uma carreira e conseguirá publicar em tempo hábil o movimento seguinte daquele discurso. Ninguém tem tempo suficiente para desenvolver sozinho a ciência de cabo a rabo, é preciso apresentar resultados para receber salário. Materializar o etéreo é fazer poda, na esperança de que se desenvolva no futuro, sempre uma incerteza.

    Visualizar um ponto auto-contraditório em uma teoria leva a saber que todas as ideias são desenvolvidas sobre uma necessidade. Praquilo que a gente não soube explicar a utilidade racional, damos o nome arte, que é muito útil aos mistérios emocionais do self. Aplicar uma ideia gerada de uma necessidade específica na análise da própria ideia, só vai funcionar se alguma conjunção astral permitir; em regra, não funciona. Pra mim, é uma questão de hierarquia dos instrumentos de análise. Mas eu penso as coisas como sistema, acho mais fácil.

  3. Amy, Amy, Amy... disse:

    No segundo parágrafo, ele também fala das experiências básicas como uma instância anterior à interpretação individual ou grupal, como num sistema. A resposta é diferente, depende das necessidades que cada indivíduo ou grupo enfrenta, mas o estímulo é o mesmo. Joga os mesmos valores em fórmulas diferentes, resultados tendem a ser
    diferentes. O que ele pressupõe aqui é que, dado o fato de que somos todos seres humanos, há condições de se analisar fatos básicos sob o crivo do que é necessidade básica para todos os seres humanos. Características intrínsecas a nossa condição humana são cultura grupal global, não entram na análise das peculiaridades locais. Conseguir divisar essas coisas permite estabelecer parcerias entre grupos com níveis de desenvolvimento muito díspares.

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