Harris, Rawls e um limite

O “contratualismo” de John Rawls se estabeleceu, nas recentes décadas, como a mais influente entre as réplicas racionais ao consequencialismo. No livro “Uma teoria da Justiça” [FP: nunca traduzam “A theory of justice” como “Teoria da Justiça”, fazer isso é meio que admitir que não entendeu o livro] Rawls ofereceu uma perspectiva para a construção de uma sociedade decente [fair society, eu traduzo Justice as Fairness como Justiça enquanto Decência, embora Rawls aplique “decent” em um contexto diferente no “Law of the Peoples”, eu acredito que vai no mesmo sentido que Fairness] que ele considerava uma alternativa para o ideal de maximização do bem-estar humano.  O método primário, pelo qual esse trabalho é merecidamente famoso, foi perguntar como pessoas razoáveis, ainda que orientadas pelo próprio interesse, estuturariam uma sociedade se elas não soubessem que tipo de pessoas elas seriam naquela mesma sociedade. Rawls chamou esse novo ponto de partida “a posição original” a partir da qual cada pessoa deve julgar a decência [fairness] de toda lei e convenção detrás de um “véu de ignorância” [ignorance veil]. Em outras palavras, podemos desenhar uma sociedade na medida em quenão presumimos saber, antes dos demais, se seremos negros ou brancos, saudáveis ou doentes, inteligentes ou burros, bonitos ou feios, etc.

Enquanto um método para julgar questões de decência esse experimento mental é sem dúvida brilhante. Mas ele seria realmente uma alternativa para pensarmos sobre as reais consequencias de nosso comportamento? Como nos sentiriamos se, depois de estruturar a nossa sociedade ideal detrás de um “véu de ignorância”, fosse revelado por um ser onisciente que foram feitas escolhas que, embora bastante decentes, levariam para a infelicidade desnecessária de milhões de pessoas, enquanto parâmetros remotamente menos decentes não levariam para tal sofrimento? Poderiamos ser indiferentes a essa informação? No momento em que concebemos justiça enquanto totalmente separada do bem-estar humano, encaramos o prospecto da existência de ações morais que são “certas” e sistemas sociais que são, reflexivamente, prejudiciais para todos afetados por eles. Simplesmente admitir, como Rawls parece fazer, que “não existem razões para pensar que instituições justas vão maximizar o bem [comum]” parece uma simples admissão de derrota moral e filosófica.

Harris, no mesmo livro de antes, p. 79 (to me desanimando e lendo mais devagar).

Duas coisas:

1) Não é uma admissão de derrota. É uma admissão de limite. Mas não espero que alguém defendendo realismo moral vá aceitar isso.

2) Rawls não acha que maximizar o bem estar é incompatível com o véu, ou com a posição original. Me parece justamente o contrário. Creio que a opção por uma posição original vai estabelecer um “ambiente” de decência com mais probabilidade de levar ao bem comum, ao que vocês aí chamam de Social Welfare Function, do que uma perspectiva consequencialista. E o Rawls tem boa evidência pra isso no trabalho do Arrow e do Downs. E também no noticiário de antes de ontem.

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