o dia que Marcos Fanton resolveu o marco teórico pra minha tese de doutorado

Aquilo que Rawls chama os “fatos”com os quais a teoria moral tem que lidar são um certo tipo de crença, crenças sobre o que é certo ou justo. O caráter discursivo desses fatos é escondido quando falamos de sentimentos morais. Ainda assim, crenças ou, para usar a expressão de Rawls, julgamentos têm a peculiaridade de serem conectados com uma reinvidicação de verdade (truth claim) ou, se preferirmos, uma reinvidicação de validade. A expressão linguística padronizada ou a crença ou julgamento é aquilo que chamamos de sentença assertórica, e é a característica definidora dessas sentenças que elas podem ser verdadeiras ou falsas. Evidentemente, é controverso se julgamentos de valor ou julgamentos normativos “realmente” podem ser verdadeiros ou falsos. Mas não pode ser controverso que tais julgamentos são, se me permitem dizer, “fenomenológicamente” verdadeiros ou falsos. Para me restringir ao termo favorito de Rawls, “justo”; é evidente que sentenças que expressam um julgamento ou crença que isso ou aquilo é justo ou injusto têm todas as características de qualquer outro discurso assertórico. nós usamos, quando nós expressamos aquilo que acreditamos ser justo ou injusto, advérbios como “realmente”, “verdadeiramente”, “aparentemente”, “provavelmente”; dizemos coisas como “Eu acreditava que isso era justo, depois eu duvidei se isso era justo, e agora eu sei que isso não é justo”.

[…]O ponto principal é que aquilo que Rawls chama de fatos para a teoria são, nesse caso, fatos conectados com uma reinvidicação de verdade. (…)[mas] Precisamos distinguir entre diferentes tipos de sistemas de crenças. Crenças sobre questões de fato (matter of fact) são característicamente justificadas, diretamente ou indiretamente, por observação. Julgamentos morais, por outro lado, se podem ser justificados de algum modo – e eles ao menos fingem ser justificáveis -, podem apenas ser justificados por princípios. A razão pela qual princípios se tornam tão importantes na moralidade, desde o ponto de vista das pessoas que fazem os próprios julgamentos morais, é que eles aparentemente cumprem um papel central no processo de justificação. Assim, parece que Rawls, se ele pensa em termos de uma teoria moral em primeira pessoa, colocou a carroça na frente dos bois.

Tugendhat. Comments on some Methodological Aspects of Rawls’ “Theory of Justice”. in Analyse & Kritik 1 (1979), Heft 1, s. 77-89. [p.80-1], minha tradução.

Valeu pela dica, Fanton. Agora vou ter que passar a semana nessas doze páginas.

Comments
2 Responses to “o dia que Marcos Fanton resolveu o marco teórico pra minha tese de doutorado”
  1. marcosfanton disse:

    :D Esse Tugendhat é um verdadeiro desgraçado!!! :P

  2. Nem me fala. Uma hora em cada paragrafo desse texto. Infernal.

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