Demolindo Rawls

“A discussão entre Rawls e os utilitaristas parece, em grande medida, uma discussão entre companheiros [kinsmen]” Tugendhat

“Intuitivismo é quase sempre uma forma disfarçada de subjetivismo. Rawls naõ se denomina um intuitivista; mas ele certamente é, no sentido normal do termo, um deles. Ele escreve, ‘Não existe uma razão para supor que podemos evitar todos os apelos para a intuição, quaisquer que sejam, ou que devemos tentar evitar tais apelos. O objetivo prático é alcançar uma acordo razoavelmente confiável nos julgamentos para que possamos estabelecer uma concepção comum de justiça’ (44/34, cf 124/38). É claro que Rawls se refere aqui, especialmente, às intuições morais; talvez se ele apelasse para intuições linguísticas, as coisas fossem mais simples. Ele reserva o nome “intuicionista” para aqueles (incluindo, sem dúvida, Ross) que advogam uma pluralidade de princípios morais, cada um deles estabelecido por intuição e não relacionados uns com os outros em uma estrutura ordenada, mas apenas pesados relativamente uns com os outros (também por intuição) quando eles entram em conflito. O nome certo para esse tipo de intuicionismo seria “intuicionismo plural”. A teoria de Rawls é mais sistemática que isso, mas não é mais bem fundamentada. Também pode existir outro tipo de intuicionismo, não-pluralista – uma forma de intuicionismo que intui a validade de um único princípio ou de um sistema ordenado de princípios, ou de apenas um método, e ergue uma estrutura completa para a moral a partir disso. Sidgwick poderia ser incluído nessa categoria – embora se ele estivesse vivo, ele provavelmente não acharia necessário confiar em intuições morais.

“Intuicionismo monista seria uma boa forma de descrever tal visão. Poderiamos aplicar tal descrição ao Rawls, não fosse pela implicação falsa, na teoria de Rawls, que ele leva em consideração apenas uma intuição e a penas em um ponto do seu argumento. Infelizmente, ele considera diversas intuições. Entre 18/9 e 20/9 eu contei em duas páginas trinta expressões implicando uma dependência em intuições: expressões como “eu admito que existe uma medida ampla de concordância que”; “pressuposições normalmente divididas”; “princípios aceitáveis”; “parece razoável assumir”; “‘é encontrado de forma natural”, “equivalem às nossas convicções consideradas sobre a justição ou se extendem à elas de forma aceitável”; “que podemos afirmar sob simples reflexão”; “estamos confiantes”; “pensamos”, e assim segue. Se o leitor tentar, como eu tentei, sublinhar as passagens do livro onde o argumento depende de tais apelos, ele pode se encontrar lembando da frase de Platão: “Se um homem começa de algo que ele não conhece, e o fim e o meio do seu argumento estão amarrados com aquilo que ele não conhece, como pode tal mero consenso em alguma hipótese se tornar conhecimento?” (Rep. 533 c0). Já que a estrutura teórica é costurada em todos os pontos para se adequar as intuições de Rawls, é dificilmente surpreendente que as consequências normativas da teoria também são consistentes com aquelas intuições – e se elas não fossem, Rawls iria alterar a teoria (19/26ff. cf. 141/23); e o fato de que Rawls é um homem bastante típico do seu tempo e sociedade – e portanto terá bastante aderentes – não faz desse um bom modo de fazer filosofia.”  Hare, Rawls’ Theory of Justice – 1. in The philosophical Quarterly, vol 23, no 91 (Apr., 1973). pp. 144-155.  [p.146-7]

Minha tradução. Não tive tempo de revisar, estou correndo aqui.

Tá bom, Tugendhat, senta ali.

Engraçado, eu lembro de ter lido esse artigo. Mas não lembrava que o Hare destruia o Rawls de forma tão contudente. E eu conheço um tipo que defende uma leitura utilitarista de Rawls. Via Hare. Vou dar uma dica: defendeu infanticídio na PUCRS.

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