Occupy whatever

Walls Sreet, 2011.

Estou com dificuldade, por algum motivo, de escrever sobre isso em português. Ao mesmo tempo, me sinto ridículo quando escrevo em qualquer um dos blogs em inglês. Fico, portanto, diante de um paradoxo: escrever em inglês e ser claro – mas me sentir ridículo; ou escrever no meu português cada vez mais obtuso e cheio de erros?

Ah, vai em português, ao menos assim os amigos podem ler e não preciso me preocupar em parecer um imbecil vendido (que sou).

Pois bem, o que dizer sobre Wall Street e a tal da ocupação?

Primeiro, recomendar o artigo do Caio Blinder falando sobre o assunto. Eu sei, eu sei, é feio dar link pra veja. Observem enquanto eu não me importo. Viram? Não me importo. É um bom artigo. Só que tem um lance que o Blinder parece identificar como problema e que eu vejo mais como sinal da natureza do protesto, ao menos do que inicialmente constituiu o “protesto”.

Decidi usar protesto entre aspas ali em cima, porque acho que não é lá a melhor palavra. Não dá para abordar o que inicialmente rolou em Nova Iorque como um protesto em qualquer sentido regular do termo. Agora a coisa tá ficando mais parecida, por que o mainstream de esquerda norte-americano (i.e.: o povo da revista Nation e da New School for Social Research) resolveu tomar conta do troço. Mas até bem pouco tempo atrás a coisa parecia mais um flash mob do que um protesto político. O que o Blinder identificou como o caráter “vago” do protesto me parece o que tem de mais interessante por ali: a formação do grupo, na frente das instituições bancárias, com cartazes inspirados em memes do 4chan, foi uma manifestação natural, orgânica, e de caráter eminentemente irônico.

A política chegou depois, atrasada.

Comparar a coisa ali com, por exemplo, a primavera árabe, ou mesmo com os protestos estudantis de 1968, é entender tudo errado. Agora, talvez, a coisa esteja mais próxima dos protestos de 1968 –  e a notícia de um Occupy Chicago! organizado pelas “lideranças estudantis” locais lembra, e muito, os protestos na RNC de 1968 (vale ver o vídeo do youtube aqui).

Mas na medida que a coisa vai ganhando caráter político ela parece, paradoxalmente, perder força. O interessante do Occupy Wall Street foi um bando de moleque com placas escritas “jump you fuckers” e “what me no bailout?” no meio de Manhattan. Conforme Cornel West, Susan Sarandon, Michael Moore e outros arroz-de-festa da “esquerda” norte-americana se integram ao protesto, levando com eles uma horda de estudantes sedentos por causas, a coisa fica menos e não mais interessante.

Isso é porque no momento que esses caras chegam e intoxicam a discussão com um certo “norte” ideológico, eles também tiram o elemento de novidade que grupos como 4chan trazem: um grande foda-se para a questão da ideologia. A última coisa que os Estados Unidos precisam, nesse momento, é um Tea Party de esquerda. A legitimidade de um bando de guris na frente dos bancos com cartazes, uma gurizada que normalmente não poderia estar menos interessada em política, é colocada em xeque por indivíduos que tem interesses políticos bem determinados nessa história (e interesses que seria de bom tom situar dentro do contexto da “old politic” – aquela das ideologias).

Digo isso porque a coisa que me deixou animado sobre o Occupy Wall Street foi o fato de não ser um movimento de “base” no mesmo sentido que o Tea Party ou o Move On são movimentos de base. Era uma manifestação expontânea que tava colocando bem claramente o caráter completamente surreal da política de mercado pós-Reagan (que foi exarcebada, lembrem sempre, por um presidente Democrata chamado Bill Clinton).

Agora, com o Move On e outros grupos “de base” empoeirados e cheios de teia de aranha, o movimento virou um occupy whatever. Com estudantes tentando desesperadamente se associar com a working class falida norte-americana, e o pessoal que inicialmente tinha organizado a coisa perdendo interesse na patota. Nas últimas semanas recebi três emails diferentes sobre “occupy”. Chicago, St Louis e Memphis. Todos eles assinados por membros de organizações estudantis, e todos eles intoxicados de vícios ideológicos (perdi a paciência para contar a quantidade de vezes que “intelectual orgânico” apareceu nesses lances).

É uma pena. Em um sentido, a politização do movimento empresta uma certa urgência e pode chamar mais a atenção – de forma imediata – aos protestos. Mas também permite ao Blinder, e outros, perguntarem “tá, mas qual é? Simplesmente dizer assim não dá não serve!”. Essa pergunta era idiota no primeiro momento do protesto. Agora, não é mais.

O reflexo da intelectualidade “de esquerda” (e por deus, não existem aspas o suficiente) foi tornar a discussão uma discussão sobre ideologia. Não precisava ser. E todo mundo tá profundamente cansado disso. Fundamentalmente, porque a questão da ideologia já foi identificada pelo público de fora das universidades como uma grande discussão cosmética – basicamente, qual é a cor da bandeira do filho da mãe que vai me sacanear?

O primeiro protesto tava rindo de Wall Street e dizendo: vocês acabaram, seus idiotas, só esqueceram de avisar.

Agora, a discussão virou, de novo, uma patota ideológica cansativa cheia de pessoas que não entendem nada de economia falando coisas sobre mercado financeiro. Era tudo que Wall Street precisava para se convencer que talvez, no fim das contas, eles não estejam tão mortos assim.

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Comments
5 Responses to “Occupy whatever”
  1. Pedro disse:

    Que o post abaixo tenha 84 (!) comentários e esse tenha apenas um (sensacional, por sinal), mostra o que realmente importa.
    Se chegarem com PSP’s suficientes na frente da NYSE, acaba a “revolucao”. Aposto 1 dólar canadense.
    Btw, post muito bom!

  2. Tatiana Vargas Maia disse:

    O Sidney Tarrow traça vários paralelos interessantes aqui: http://www.foreignaffairs.com/articles/136401/sidney-tarrow/why-occupy-wall-street-is-not-the-tea-party-of-the-left?cid=soc-facebook-snapshots-why_occupy_wall_street_is_not_the_tea_party_of_the_left-101211

    Ele propõe algumas respostas interessantes às tuas colocações. Vale a leitura. :)

  3. Pedro disse:

    It keeps getting better and better…

    http://frankmillerink.com/2011/11/anarchy

    (eu ia fazer um trocadilho com 300, mas achei melhor nao)

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